Para os que querem abandonar o Brasil depois da eleição de Dilma

iG Minas Gerais |

DUKE
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É espantoso ver nos jornais e nas redes sociais a quantidade de pessoas, geralmente das classes altas ou celebridades, a quem custa digerir a vitória eleitoral da presidente reeleita Dilma Rousseff. Externam ódio e raiva, usando palavras tiradas da escatologia e da baixa pornografia para insultar o povo brasileiro, especialmente os nordestinos. Muitas dessas pessoas não se sentem povo brasileiro, mas estão aqui porque neste país é mais fácil enriquecer, embora o desfrute mesmo seja feito no exterior. Alguns mais exacerbados, mas com parquíssima audiência, sugerem até separar o Brasil em dois: o Sudeste rico de um lado e o resto do outro, especialmente o Nordeste. Acresce a isso o Parlamento brasileiro, a maioria eleita com muito dinheiro e que mal representa o povo. Finge que escutou o clamor das ruas em junho de 2013 demandando reformas, mas já se esqueceu de tudo. Rejeitou o projeto do governo, no rescaldo da reeleição, que visava ordenar e dar maior espaço à participação dos movimentos sociais na condução da política nacional, respeitadas as instituições consagradas pela Constituição. Tal fato nos remete ao que Darcy Ribeiro diz em seu esplêndido livro “O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil” (1995): “O ruim no Brasil, e efetivo fator do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus… O que houve e há é uma minoria dominante, (...) sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente” (p. 446). Essa afirmação nos permite entender por que a presidente quer uma reforma política que não venha de cima, do Congresso, porque este sempre se oporá ao que possa contradizer os seus indecentes privilégios. Deve partir de baixo, ouvindo os reclamos do povo brasileiro. Ouvi de um sacerdote que viveu sempre na favela: “Há um evangelho escondido no coração do povo humilde, e importa que o leiamos e escutemos”. Vale a mesma coisa para as várias reformas desejadas pela maioria da população: auscultar o que se aninha no coração do povo e dos invisíveis. Podemos tolerar a arrogância e a resistência dos poderosos e dos parlamentares. O que não podemos é defraudar a esperança de todo um povo. Ele não merece isso depois de tanto suor, sacrifícios e lágrimas. Ele precisa voltar às ruas e renovar com maior contundência o que irrompeu em junho do ano passado. O Parlamento abandona sua inércia quando é posto sob pressão, como se constatou em 2013. Voltemos a Darcy Ribeiro. Uma coisa são os povos transplantados, como nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. Eles reproduziram os moldes dos países europeus de onde vieram. No Brasil foi diferente. Ocorreu uma das maiores miscigenações da história. Misturaram-se índios, afrodescendentes, europeus, árabes e orientais. Criaram um novo tipo de gente. Diz Darcy: “O nosso desafio é o de reinventar o humano” (p. 447). Não me furto a citar estas palavras proféticas com as quais fecha seu livro: “O Brasil é já a maior das nações neolatinas. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça, tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor porque incorpora em si mesma mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”(p. 449). Para os que querem sair do Brasil: fiquem nesta esplêndida Terra e nos ajudem a construir esse sonho bom.

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