Anália Perez Bianchini

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Apesar de ainda jovem, 26 anos, e de nunca ter tido qualquer problema de saúde, Anália Perez Bianchini é obcecada pela morte. A sua própria, particularmente. Também parece não haver registro de nenhum trauma que justifique esse traço da personalidade de Anália. O curioso é que, a despeito do pendor mórbido, ela é uma pessoa alegre, com boa disposição e bom humor a toda prova. “Na hipótese de eu morrer em um acidente de carro, sabe o que mais atiça a minha imaginação? Saber que música vai estar tocando no rádio na hora”, é o tipo de coisa que ela costuma me dizer, e que reproduzo aqui à guisa de exemplo de como Anália aborda o tema. Estar a bordo de um avião que, com as turbinas queimadas, mergulha inapelavelmente para o oceano também é uma situação que, de forma recorrente, provoca sua imaginação. “Pensa bem, você simplesmente não tem nada para fazer, ainda está vivo mas já está morto”, divaga a moça, com um sorriso no rosto que é quase de esperança e os olhos castanhos claros perdidos no infinito. Anália gosta de pensar na aterrorizante ideia – que também povoava o imaginário de Edgar Alan Poe – de ser enterrada viva. “Vai que, por qualquer motivo, as pessoas não se dão conta de que eu ainda estou viva, fecham o caixão, cumprem o velório, levam para a cova e, com o barulho da primeira pá de terra caindo sobre a tampa, eu acordo. Já pensou? Até me dá um pouco de medo”, diz, sem alterar a placidez de suas expressões. Mas Anália não se detém apenas no próprio fim. Ela também costuma imaginar situações de grandes tragédias, catástrofes naturais, guerras sangrentas e outras causas de mortalidade em larga escala. Nossa personagem tem certo pudor em revelar, mas a verdade é que ela é fanática pelas superproduções de Hollywood em que o mundo é dizimado. Amante das artes e bem informada que é, Anália tem especial apreço por obras de qualquer espécie que lhe apresentem formas inusitadas, diferentes ou especialmente violentas de se matar ou morrer. Mais de uma vez que fui à sua casa, ela colocou para ouvirmos a música “Dissertação do Papa Sobre o Crime Seguida de Orgia”, dos Titãs – um verdadeiro inventário de mortes bárbaras: “quase todos os selvagens da América matam os velhos se os encontram doentes”, “em Madagascar, todas as crianças nascidas às terças, quintas e sextas- feiras são abandonadas aos animais ferozes”, “Quando Gengis Khan se apoderou da China mandou degolar a sua frente dois milhões de crianças”, “os irlandeses esmagavam as vítimas”, “os irlandeses perfuravam-lhes o crânio”, “os gauleses partilham-lhes a bacia”, são alguns trechos da letra. Anália também se empolga ao falar do penúltimo capítulo do livro “Diário de um Fescenino”, de Rubem Fonseca, em que o autor formula uma lista de escritores que morreram de forma esdrúxula. “Você sabia que Anacreonte, poeta grego da Antiguidade que escrevia versos líricos celebrando o vinho e o amor, morreu engasgado com um bago de uva? E que a Silvia Plath morreu enfiando a cabeça no forno, você sabia? E Hemingway, que se matou com um tiro de fuzil? Fico pensando em como, apontando para si mesmo, ele conseguiu alcançar o gatilho. Mas o melhor mesmo é Ésquilo, que estava sentado no campo e morreu atingido por uma tartaruga na cabeça, que uma águia tinha soltado bem lá de cima com a intenção de quebrar a casca do bicho”, ela reproduz. Os músicos, roqueiros principalmente, também são um prato cheio para a obsessão de Anália, ainda que, para os que foram vítimas de overdose, ela não dispense muita atenção, por considerar que já se tornou banal um roqueiro morrer assim. “Acho mais interessante casos como o do Dimebag Darrel, do Pantera, que foi assassinado com um tiro em pleno palco, quando tocava, ou do Assis Valente, que tentou suicídio duas vezes, pulando do alto do Corcovado e cortando os pulsos, antes de conseguir, na terceira vez, tomando formicida”, detalha, entusiasmada, antes de dizer que tem se que arrumar, porque vai a uma festa na casa de uma amiga, encontrar um “gatinho muito pálido e de olheiras profundas” – palavras dela - que está paquerando. “A vida está aí para ser vivida, tem que aproveitar”, ela me diz. Crônica originalmente publicada no dia 24.8.12

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