Sobre erros e acertos

iG Minas Gerais |

A mulher nunca observou os próprios erros com um olhar acolhedor. Passou a vida teimando em não cometê-los. Mas, inevitavelmente, eles vieram. Sem aceitação. Sem qualquer reconhecimento. Desculpas, terceirização das falhas, ansiedade e dor chegaram junto com os percalços. E assim a vida foi passando, em meio a certa arrogância e sem muitos aprendizados. Com o desejo, ou melhor, com certa fixação em acertar. Rugas no rosto. Idade avançada. E um peso enorme de não poder voltar no tempo. Aquela senhora se sente só aos sessenta e tantos anos. O marido se foi, os filhos pouco a visitam. Vive entre as plantas e os livros numa casa perfeita, bem- cuidada e decorada. Os bens materiais que adquiriu ao longo da vida foram muitos, apesar de, atualmente, pouco importarem pra ela. Nem precisa contar que está triste. A melancolia está em seus olhos. Há também certa amargura. Fácil de notar. Acho que se arrepende de ter pensado tanto antes de agir. Ao contrário dela, há quem não tem medo de errar. Quem exibe os erros como troféus, que faz deles pontos de partida para recomeçar. Gente como essa outra mulher. Ainda não chegou aos sessenta. Mas está quase lá. A maior parte da vida foi permeada de coragem diante dos desafios. Enfrentou as mudanças com dificuldade. Escolheu um caminho quando ele não era necessariamente o melhor. Bateu com a cara na porta muitas vezes. Não sabe contabilizar quantas vezes se abateu, se envergonhou, sentiu-se pequena. Reconheceu. Respirou e voltou a andar. Encarou as verdades com dignidade, em meio a dúvidas, mas acreditando em viradas. Adora contar seus feitos. Lembra-se com alívio de quando largou um curso de direito. Faltava um ano para se formar. Não estava feliz com a escolha. Ouviu a enxurrada de críticas. Enfrentou suas próprias angústias antes de encarar o novo vestibular. Orgulha-se de ter errado e credita a essas falhas os novos rumos que vida lhe deu. Aposentou-se recentemente. Foi viajar com as irmãs. Parcelou as passagens. Nunca ficou rica, mas não está endividada. Vive razoavelmente. Procura agir duas vezes antes de pensar. Está sempre levantando a poeira das quedas. Não sei você como lida com seus erros e acertos. Mas nunca é demais pensar sobre eles. Nos pequenos, nos grandes, nos que parecem irreversíveis. Há tantos tipos de erros, tantos caminhos a percorrer. Todos os dias fazemos escolhas sem a menor garantia de que estejam corretas. Podemos errar no trabalho, no amor, na criação dos filhos... Errar me parece uma questão natural. Justamente por isso deveria ser mais fácil admitir nossos fracassos. Deveria ser mais fácil processá-los internamente. As visões extremas em relação ao erro convivem de forma conflituosa dentro de nós mesmos. A cada dia, uma nova experiência. Algumas falhas podem nos levar a descobertas incríveis, acertos memoráveis. Outras vão ser simplesmente o retrato do desleixo, a negação da tentativa do acerto. Insistir nos erros é não estar disposto a fazer o melhor. É ter pouca ou nenhuma vontade de aprender, de crescer, de chegar. As chances estão por aí. Não há em tempo algum a certeza de que estamos certos. Será preciso apostar. Enfrentar a si mesmo e se encher de coragem a cada dia. Nas escolhas e lutas diárias. Isso não significa que não haverá incertezas, preocupações ou algum medo. Eles virão e serão combatidos com a fé. Nunca é demais tentar.

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