Entidade luta contra o aborto

Após percepção de cartazes enigmáticos espalhados pela cidade, reportagem investiga suspeita de clínica clandestina e descobre o trabalho de uma ONG pró-vida

iG Minas Gerais |


Propaganda de aborto? 

Cartaz em padaria localizada na cidade de Contagem levantou suspeitas
Neila Felix / Divulgacao
Propaganda de aborto? Cartaz em padaria localizada na cidade de Contagem levantou suspeitas

Uma repórter do criou um personagem para apurar a suspeita de que uma clínica clandestina atuaria na capital, com direito a cartazes de propaganda espalhados em comércios e na internet. Entre guloseimas em uma padaria de Contagem, um desses anúncios chamou a atenção. “Engravidei. E agora?”, problematiza a primeira frase, seguida da foto de uma jovem cabisbaixa. E, em seguida, o conforto: “Se você está numa gravidez indesejada, procure-nos! Nós podemos te ajudar”. O TEMPO

A repórter entrou em contato via telefone se passando por grávida. “Sobre isso, não posso falar por telefone”, foi a resposta que ouvi ao tocar na palavra ‘aborto’. “Vem aqui conversar com a gente, podemos te ajudar”, insistia.

No espaço por trás do portão verde e do muro alto do número 62 da rua Joazeiro, funciona a Apoio a Mulheres numa Gravidez Indesejada (Amgi), uma organização ligada à Igreja Batista da Lagoinha. De acordo com a responsável pelo trabalho, Katilene Silva, cerca de 20% das mulheres que procuram a ONG o fazem com o intuito de abortar. Dessas, um terço muda de ideia. “A maioria dos casos que recebemos é de rejeição à gravidez, devido a um momento difícil ou porque não foi planejada”, destaca. “Quando as pessoas ligam, a gente sempre marca um encontro. Nunca dispensamos por telefone”.

Em atuação desde 2008, a Amgi acompanhou cerca de 600 mulheres, entre 15 e 45 anos, a maioria em situação de vulnerabilidade social, como usuárias de drogas e moradoras de rua. O apoio gratuito continua até depois do nascimento do bebê.

Susto e negação

Grávida de nove meses, a estudante Ana Luiza Lopes, 26, contou com o apoio da entidade para aceitar a chegada da filha. Mesmo casada, ela se considerava despreparada para ter um filho, já que começaria em um novo emprego. “Pesquisei na internet sobre dificuldades na gestação e gravidez indesejada, para ver depoimentos e saber como outras mulheres estavam lidando com isso, porque eu estava me sentindo sozinha”. Na busca, ela descobriu o trabalho da Amgi e foi acolhida. Ana Luiza passou por atendimento psicológico e emocional e agora aguarda ansiosa por sua Maria Eduarda.

Em números

Minas foi o terceiro Estado com o maior número de internações por gravidezes que terminaram em aborto – tanto espontâneos quanto induzidos, legais ou ilegais – em 2013, segundo levantamento obtido com exclusividade por . Atrás de São Paulo e Bahia, o Estado teve 82.595 gestações interrompidas – 13.989 em Belo Horizonte, segundo estimativas de especialistas.O TEMPO

No Brasil, o total de abortos induzidos no mesmo ano pode ter chegado a 865.160 – o Ministério da Saúde registrou 1.523 procedimentos legais. Os dados são do trabalho “Magnitude do Abortamento Induzido por Faixa Etária e Grandes Regiões”, de Mario Giani Monteiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e Leila Adesse, da ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde. “O estudo tem a ver com o risco de induzir o aborto e de gravidezes indesejadas, além das consequências da baixa utilização de medidas anticonceptivas”, diz Monteiro.

O levantamento se baseia nas internações em consequência de abortos espontâneos e induzidos do Datasus, banco de dados do Sistema Único de Saúde. Em Minas, foram 19.578 em 2013. Calcula-se que, para cada internação por abortamento na rede pública, cerca de quatro clandestinos são feitos.

Em Belo Horizonte, de acordo com o Comitê Municipal de Prevenção do Óbito Materno, de janeiro a 1º de novembro deste ano, duas mulheres morreram em decorrência de abortos, e mais dois casos são investigados. Se eles forem confirmados, 2014 será o ano com maior número de óbitos por abortos desde 2006.

“Aquele foi o único ano, em 20 de investigação, em que o aborto superou outras causas de morte em grávidas. Na época, houve uma diminuição na fabricação da droga (para a interrupção da gravidez), e as mulheres precisaram usar métodos cirúrgicos”, diz o coordenador de Atenção à Mulher da Secretaria Municipal de Saúde, Virgílio Queiroz.

Contato

Interessados em ajudar a ONG como voluntário, palestrante, mantenedor, intercessor ou doador podem ligar para (31) 2551-8525 ou acessar www.amgi.org.br.

A Amgi fica na rua Joazeiro, 62, no bairro São Cristóvão, na capital.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave