Justiça autoriza reintegração de posse após invasão a condomínio

Liminar concedida nesta quinta-feira (13) pela Justiça do Rio de Janeiro garante a imediata reintegração de posse do conjunto residencial, invadido por 200 famílias no último sábado (8)

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

Uma liminar concedida nesta quinta-feira (13) pela Justiça do Rio garante a imediata reintegração de posse do conjunto residencial do Programa Minha Casa Minha Vida, situado no bairro de Guadalupe, na zona oeste do Rio. No último sábado (8), o local foi invadido por 200 famílias das favelas Gogó da Ema, Chapadão, Pedreira e Final Feliz -todas localizadas nos arredores do empreendimento habitacional do governo federal, que tem 11 prédios e 204 apartamentos. A ocupação contou com o aval dos traficantes de drogas da região.

Os portões principais do condomínio acabaram bloqueados pelos invasores. Para entrar no Residencial Guadalupe, na zona oeste do Rio, é necessário atravessar um extenso corredor por dentro da favela Terra Prometida.

A reportagem entrou no conjunto residencial e entrevistou participantes desta ocupação. Alguns alegaram estar cadastrados no programa federal e, cansados de esperar pela casa própria, optaram por invadir o empreendimento.

"A boca pequena foi passando, dizendo que iria ocorrer a invasão e eu senti que deveria participar. Estou há cinco anos na fila do sorteio para uma casa e acho errado pessoas que não são nem da zona oeste ocuparem. Vão vender e ir embora", disse Janaína Souza, de 46 anos, que perdeu a casa que morava de aluguel em um desabamento no morro do Chapadão, no último dia 30 de setembro.

Sem água e sem luz, alheias à apreensão ocasionada pela presença de policiais no portão principal, que estava com vários cadeados, cerca de 50 crianças brincavam sob o sol de 39ºC do final da tarde de quarta-feira (12). Outro grupo de crianças dividia um garrafão de 20 litros de água mineral e comiam alfaces, colhidas em uma horta próxima.

"Essa foi a única alimentação deles. Viemos só com a roupa do corpo, quando saímos daqui a polícia faz revista e é capaz de nos segurar do lado de fora. Então, é o que tem para comer", afirmou Marisa Rodrigues, 55, mãe de um menino de 10 anos. "Ele saiu da escola porque corria o risco de ser baleado a caminho, por isso estou aqui. Operei a coluna e não posso trabalhar mais como faxineira. Recebo o Bolsa Família, mas não é suficiente", afirmou.

Crianças na ocupação. Também sem residência e desempregado, Luan Roberto Esteves, de 22 anos, segurava o filho de um ano no colo, que estava com feridas abertas de catapora e febril. "Não tenho como levar no posto de saúde. O pouco que tenho coloquei em um apartamento aqui. Se sair, posso perder a vaga".

Já Antonieta de Melo, de 75, responsável por criar seus dois netos de 10 e 19 anos, abandonados pela mãe, diz que não consegue mais pagar o aluguel de R$ 100. "O pai deles ajuda, mas não é quando pode. Não tenho benefícios, pois não tenho a guarda deles. Sou diabética e posso ir embora dessa vida a qualquer momento. Quero deixar uma casa para meus netos", diz, chorando.

Durante a ocupação, o motorista de caminhão Carlos Eduardo Campos, de 32 anos, resolveu fazer um cadastro de todos. "Essa foi uma forma que encontrei de ajudar, todos se ajudam aqui. São 200 famílias, cada uma ocupou um apartamento. A maioria tem mais de dois filhos, ou seja, a maioria dos que estão aqui são crianças. Todas estão cadastradas no Minha Casa, Minha Vida, por isso posso te afirmar que a renda é pequena", disse.

Ele nega que o tráfico tenha participado da invasão e que há líderes na invasão. "Não tinha traficante junto. Nem precisava já que os dois seguranças não dariam conta de segurar tanta gente. Dizer que o tráfico está nos ajudando é nos criminalizar e ficar mais fácil para o governo dizer para a gente esperar", disse.

Ainda de acordo com Campos, os traficantes flagrados em uma filmagem só estavam transitando pelo local. "É impossível evitar. Estamos no meio de várias favelas. Mas o que nos assusta são os policiais. Eles que nos intimidam e chegaram a atirar para o alto na porta do condomínio. Nos xingam e nos revistam. Querem confusão", disse.

Cadastro no programa. Indagado sobre a opinião do prefeito Eduardo Paes (PMDB) que os chamou de vagabundos, Campos muda o tom de voz. "Sou trabalhador! Aqui todos são, mesmo os que não tem trabalho. Vontade de trabalhar não falta, mas não tem emprego. Somos pobres, é mais fácil falar vagabundos. E a prefeitura que não veio nem fazer um cadastro?", diz, mostrando a carteira de trabalho assinada.

O intuito do grupo é entregar a relação nominal dos moradores para que um cadastro mais rápido seja feito. Campos diz que estava há três anos esperando o sorteio do programa federal "Minha Casa Minha Vida", mas mês passado foi checar e seu nome havia sido retirado. "Não foi só comigo que isso ocorreu. É fácil esquecer, dizer que não tem vaga. Temos fome, queremos casa para morar e isso é urgente. Por isso, só sairemos daqui com outro cadastro a espera de um lugar certo para morar", afirmou.

Dentro dos apartamentos, formados por dois quartos, sala, cozinha e banheiro, os moradores ainda não desfizeram as malas, por conta do medo da desocupação. "Tudo está guardado, ainda. Não sujamos nada.

Usamos o banheiro e jogamos um pouco de água para a urina descer, já que cortaram nossa água. O lixo nós estamos juntando. Deve ter coleta por aqui. As crianças sabem que não podem rabiscar as paredes, afinal, é nossa casa nova", disse Nathália Rodrigues, 21, sorridente ao lado com seus dois filhos, de 3 e 2 anos.

Apesar da tensão ocasionada pela desocupação iminente, ela não escondia a alegria de ter um apartamento para os filhos. "É um sonho. Essa é a minha casa, minha vida", disse ela, dentro do apartamento vazio, cheirando a tinta fresca.

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