Biografia envolve, mas sem o brilho do carnavaleso

iG Minas Gerais |

Contido, Nachtergaele encarna elegância silenciosa de Joãosinho
fox
Contido, Nachtergaele encarna elegância silenciosa de Joãosinho

O Carnaval carioca existe antes e depois de Joãosinho Trinta. O artista foi um dos grandes responsáveis por vislumbrar o espetáculo da Sapucaí como um encontro de arte, ópera e cultura popular, numa das maiores e mais claras manifestações do grande caldeirão cultural brasileiro.

E talvez o maior problema de “Trinta” é que o mesmo não pode ser dito do filme. O longa funciona como uma narrativa do herói que vence contra tudo e contra todos, com um recorte bem definido que faz um retrato coerente do homem que ele quer biografar. Mas esteticamente, ele não tem o mesmo impacto visual nem o caráter revolucionário dos trabalhos do carnavalesco.

Dirigida por Paulo Machline (“Natimorto”), a produção acompanha o protagonista (vivido por Matheus Nachtergaele) desde seu ingresso como bailarino no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Lá, Trinta conhece Fernando Pamplona (Paulo Tiefenthaler), que o leva para trabalhar com ele no Salgueiro. E o roteiro foca no ano de 1974, quando Pamplona deixa a escola e Joãosinho assina seu primeiro desfile como carnavalesco, com o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, que lhe rendeu o primeiro dos oito títulos no Carnaval carioca.

Apesar de inspirado na vida de Joãosinho, “Trinta” cria literalmente um samba do crioulo doido com sua trama. O longa estabelece um vilão na figura do diretor de barracão Tião (Milhem Cortaz), que nunca existiu. Ainda acontece um incêndio, algo que ocorreu com o protagonista em outro Carnaval, em outra escola, e Nachtergaele fala várias frases icônicas pelas quais o carnavalesco ficaria conhecido só anos depois.

Mas se a mistura não é exatamente documental, ela funciona bem como ficção. Machline consegue construir um arco que faz o público torcer pelo triunfo de Trinta e que serve como um retrato envolvente do esforço e sacrifício que é fazer um desfile de Carnaval.

Nachtergaele – conhecido por performances “grandes” como o Cintura Fina de “Hilda Furacão” e o Dunga de “Amarelo Manga” – é obrigado a conter seus tiques mais “expressionistas” e se render à elegância silenciosa de Joãosinho. Vítima de homofobia e hostilizado por quase toda a escola durante quase todo o filme, o protagonista engole as ofensas e o silêncio – e é na resposta que ele dá através de sua arte que o ator encontra o gênio e a paixão por trás do mito. É sua atuação, aliada à belíssima trilha clássica de André Abujamra, que chegam mais próximas de decifrar a mistura do erudito e popular que eternizaram Trinta. (DO)

Outras estreias

Para os nostálgicos dos anos 1990, os irmãos Farrelly voltam com “Débi e Lóide 2”. O longa comemora os 20 anos de lançamento do original e traz de volta Jim Carrey e Jeff Daniels como protagonistas.

Já o musical “Os Idênticos” conta a história de dois irmãos gêmeos criados por famílias diferentes, com leve inspiração na história do rei do rock Elvis Presley.

Outro rei, este da alta costura, que chega aos cinemas é “Saint Laurent”. O filme é a segunda biografia do estilista lançada em 2014 e concorreu à Palma de Ouro em Cannes.

O nacional “Ventos de Agosto”, por sua vez, foi premiado no festival de Locarno e ganhou os prêmios de melhor atriz e fotografia em Brasília.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave