Sobre a matéria- prima da vida

Filmado por 12 anos, longa venceu Urso de Prata de direção em Berlim

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Sem efeitos especiais. Durante 12 anos, o estreante Ellar Coltrane viveu o protagonista Mason, dos 5 anos, 
passando pela adolescência, até chegar aos 18 anos no fim do longa
fotos: universal / divulgação
Sem efeitos especiais. Durante 12 anos, o estreante Ellar Coltrane viveu o protagonista Mason, dos 5 anos, passando pela adolescência, até chegar aos 18 anos no fim do longa

Em “Interestelar”, que estreou nos cinemas na semana passada, o tempo era o vilão. Os personagens corriam contra ele para salvar a Terra. Sua relatividade desintegrava famílias. A impossibilidade de controlá-lo era materializada na rendição de um personagem que ficou flutuando no tempo no ato final até ser encontrado anos depois.

Já em “Boyhood: Da Infância à Juventude”, que chega hoje em Belo Horizonte, o tempo é o protagonista. Se o longa do cineasta Richard Linklater (da trilogia “Antes do Amanhecer”) é o retrato de como se constrói uma pessoa, um quebra-cabeça de vários e mínimos pedaços, o tempo é a matéria de que essas peças são feitas.

O diretor acompanhou o protagonista Mason (a revelação Ellar Coltrane) dos 5 aos 18 anos, filmando pequenos pedaços de sua história uma vez por ano entre 2002 e 2013. Se “Interestelar” viaja para o espaço e gasta milhões de dólares elaborando sobre os efeitos da teoria da relatividade e buracos negros, “Boyhood” mostra um retrato muito mais claro e emocionante do poder do tempo. Ver um garoto se transformar em um homem em menos de três horas é um dos maiores efeitos especiais da história do cinema.

E o mais incrível da realização de Linklater é que ele consegue segurar essas 2h45 sem nenhum truque cinematográfico. O cineasta entende que nossas vidas não são definidas por grandes acidentes, revelações bombásticas ou outros recursos novelescos.

É por isso que o filme consiste de Mason observando os momentos que vão definir quem ele será. A mudança de cidade. A compaixão pelo dedinho podre da mãe (Patricia Arquette) para escolher maridos. A admiração pela liberdade do pai ausente (Ethan Hawke), que se mostra na verdade uma relutância em amadurecer e assumir responsabilidades. A descoberta de que a mãe não tem todas as respostas. O platonismo do primeiro amor.

É ao entender esses eventos que Mason se torna uma pessoa – e a magia de “Boyhood” é nos permitir compartilhar isso com ele. É por isso que o projeto de Linklater é mais que um artifício marqueteiro. Trazendo experiências de Coltrane, Arquette e Hawke para o roteiro, o filme faz uma reflexão quase documental sobre o efeito das pessoas que passam por nossa vida sobre quem nos tornamos.

O resultado emocional disso é um afeto enorme por Mason. Não por acaso, o único momento em que Linklater conta a história do ponto de vista de outro personagem que não o protagonista é uma cena no final, quando a mãe encara a ida dele para a universidade. Após o melhor trabalho de sua carreira, essa é a cena que pode dar o Oscar a Patricia Arquette, por expressar em poucos minutos a dor do público de ter que abandonar Mason.

Esse processo de amadurecimento é tão convincente porque é construído em cada elemento do filme. No figurino do protagonista, claro e colorido na infância, partindo para cores escuras e sóbrias quando ele cresce (mas sempre em tons de azul, criando uma identidade para o personagem). Ou na edição, que começa com cenas mais curtas, refletindo a memória e a atenção da criança, e permitindo diálogos e planos mais longos à medida que o universo de Mason se expande – e Coltrane se torna um ator mais experiente.

Mas um dos elementos mais importantes de “Boyhood”, sem dúvida, é a trilha. O longa não usa letreiros e, além do crescimento e dos cortes de cabelo do elenco, a forma com que Linklater marca a passagem do tempo é usando músicas icônicas da última década. Mas elas são mais que um “best of” do seu iPod. O longa começa com “sua pele e ossos se transformam em algo lindo”, de “Yellow”, e termina com “deixe-me ir, eu não quero ser seu herói”, de “Hero”. Elas ajudam a contar a história, falando de como o tempo nos molda.

Algo como o que o Green Day, que não está na trilha, definiu bem há 15 anos: “faça o melhor desse teste e não pergunte por quê / é algo imprevisível, mas no final faz sentido / eu espero que você tenha aproveitado os momentos da sua vida”.

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