Os acampados

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Era o ano de 2011. Por dois dias, em frente ao estádio do Morumbi, em São Paulo, pude ver a manifestação de adolescentes à espera do ídolo Justin Bieber. Sim, porque, dois dias antes do show, a garotada montou barraca na porta do estádio, com direito a cobertas, comidas enlatadas, biscoitos e água. Que banheiro usavam e onde tomavam banho, só Deus sabe! O pior é que, devido à menoridade, normalmente levavam junto uma tia mais empolgada, uma mãe descolada, sei lá... Deviam ser seis adolescentes para cada adulto, imagino eu. Claro, meninos também estavam na fila e nas barracas, mas em número bem menor. Bieber hoje, além de perder o ar “adolescente”, vem aprontando tanto que não compreendo como meninas em sã consciência continuam fazendo absurdos por sua causa. Não que eu não entenda dessas coisas, também já fui tiete de carteirinha, principalmente de jogadores de futebol. Colecionava autógrafos e fotografias, mesmo daqueles dos times adversários. Alguns cantores me emocionavam; ia aos shows e os aguardava na saída. Eu e mais um bando de enlouquecidas. Mas daí a dormir numa barraca no meio da rua? Bom, talvez dormisse, se minha mãe o permitisse, claro! No sábado passado tivemos o concurso Garoto e Garota Super, no Mineirinho, com direito a show de Luan Santana. Ginásio lotado, mais de 15 mil pessoas, milhares de adolescentes se acotovelando na frente para ver seu ídolo de perto. Antes do show, o desfile dos concorrentes. O garoto vencedor, antes de ser eleito pelo júri, já havia sido escolhido pela torcida feminina, que, aos gritos, demonstrou sua preferência. E foi aí que me dei conta de que 80% da plateia era formada por mulheres, na maioria jovens e adolescentes. Durante o show, observando aquelas mais próximas do palco, pude perceber a emoção e o desvario que sentiam pelo cantor. Todas gritavam, muitas choravam e, sem exceção, todas sabiam de cor e salteado as letras de suas músicas. No jornal me contaram que muitas delas, para pegar lugar na frente, estavam na fila desde as seis da manhã. Bom, o show começou à meia-noite, ou seja, 18 horas por conta. Tento entender a maluquice e pergunto aos nossos organizadores como elas se mantinham em pé e ainda com fôlego nessa situação. Soube que nossa equipe de suporte oferecia água e biscoitos para a turma que não saía do lugar, nem sequer para ir ao banheiro. Descobrimos isso no dia seguinte, quando a equipe da limpeza encontrou um chão encharcado de urina. Meu Deus! As garotas faziam xixi na calça e, além de permanecerem horas em pé, com sede e com fome, ainda ficavam com a roupa molhada? É paixão demais! A mesma paixão que levou torcedores do Atlético a montar barraca, quatro dias antes da venda de ingressos para o jogo contra o Cruzeiro, na sede do clube, em Lourdes. Entrevistados, os “acampados” não pareciam se preocupar muito com a situação. Matheus, um dos torcedores, tinha chegado dois dias antes com uma mochila levando água, biscoitos e uma maçã. E “a paixão no coração”, como gostava de frisar. Outro, Felipe, dizia: “Minha mãe falou que eu sou doido por fazer um sacrifício deste. Ela diz que futebol não vai me dar nada em troca. Engano dela, este título vai ficar marcado para sempre”. Sem barraca, procurava um jeito para passar a noite. Provavelmente, enrolado na bandeira que carregava nas mãos. Torcedores e tietes apaixonadas sempre encontram uma forma para ver seus ídolos de perto. Quando jovem, fanática por futebol, recordo-me de que, dependendo do jogo, ia quatro, cinco horas antes para pegar um bom lugar na arquibancada, isso levando uma bandeira e um saco enorme de papel picado, que passava a semana inteira picotando. Louca? Não, apenas apaixonada. Hoje não faria isso. Minha última atitude “descompensada” foi há uns três anos, quando estava pronta para ir a uma festa, cabelo arrumado, maquiagem, vestido passado no cabide e “BUM”! Deu a louca, e fui parar no Mineirão. Naturalmente esse desvio de rota aconteceu no último instante, para o espanto do meu marido e da filha cruzeirense. – Mãe!!! Você está doida??? – dizia, enquanto me observava revirando as gavetas em busca de minha velha camisa listrada. – E se você não encontrar ingresso? – perguntava, preocupada com essa possibilidade. – Eu dou um jeito! Fica tranquila. E o jeito foi dado. Quarenta reais a mais, desembolsados nas mãos de um cambista, que, naquela altura do campeonato – literalmente falando –, foi minha única possibilidade de adquiri-lo. O estádio estava lotado. Sentei-me distante do local pretendido, mas fazer o quê? Estar lá dentro já era um grande feito. Escrevo esta crônica no domingo, antes do jogo do dia 12. Espero, sinceramente, que tenha valido a pena tanto esforço e disposição dos “acampados”. Quanto a mim, a partir de amanhã, me empenharei também e, como muitos dos empenhados, darei um jeito.

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