Hino de estudantes de Medicina da USP gera indignação em rede social

Termos como "preta imunda", "loirinha bunduda" e "morena gostosa" aparecem em uma das músicas da Bateria a Faculdade de Medicina da unidade de Ribeirão Preto

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

Em uma das músicas, cantadas por estudantes de Medicina da USP, evidenciam termos racistas e machistas
Reprodução/Facebook
Em uma das músicas, cantadas por estudantes de Medicina da USP, evidenciam termos racistas e machistas

Um onda de indignação foi criada nas redes sociais depois que um hino com termos racistas e machistas, cantado por estudantes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, foi divulgado na internet. Desde o último dia 8 de novembro, usuários do Facebook compartilharam letras das músicas da Bateria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, conhecida como Batesão. Em um delas, são usados termos como "preta imunda", "loirinha bunduda"  e "morena gostosa".

Em resposta as várias notícias geradas pela imprensa sobre o caso, a Batesão publicou uma carta no Facebook com um pedido de desculpas e assumindo a "vergonha" ao ver o nome da bateria associado a algo que eles não são. "Nós, que gerimos o grupo atual, tivemos o descuido de não observar as letras (tidas como “históricas”, e que foram criadas por antigos membros de décadas atrás, quando racismo e preconceitos eram comportamentos corriqueiros, embora sempre inaceitáveis) de algumas das canções que estão repletas de conteúdos abjetos, machistas e racistas. Afirmamos que nenhuma dessas letras foi escrita por nós, nem sequer são lembradas ou cantadas pela nossa Faculdade.", segundo trecho de carta da Batesão.

Alunos afirmaram, através de postagens na internet, que a letra do hino foi veiculada em um manual para calouros do curso de medicina, juntamente com camisas da equipe atlética do curso. As informações são do G1.

A Universidade de São Paulo (USP) manifestou por meio de uma nota afirmando que desconhecia as letras de cunho preconceituoso e que "pelo menos uma das músicas tem letra ofensiva a todo ser humano, e às mulheres de todas as raças". Com isso, posiciona-se contra as manifestações de alguns alunos e diz não compactuar com as ações. Sobre o material distribuído para os caloiros, a USP afirmou que as letras das músicas da Batesão não fazem parte do conteúdo oficial enviado anualmente para os alunos que ingressam na universidade.

Leia a nota da USP na íntegra:

A Diretoria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) manifesta grande preocupação diante das notícias, veiculadas na imprensa, sobre músicas e letras com conteúdo racista existentes no meio estudantil de nossa Unidade, e faz os seguintes esclarecimentos.

As manifestações públicas dos estudantes de Medicina que temos presenciado nos últimos anos têm, felizmente, direção oposta ao que está sendo noticiado. Corrobora esta afirmação as manifestações havidas, em sua maioria, diante da nossa presença, nos eventos organizados tanto pelo Centro Acadêmico Rocha Lima (CARL) como pela Associação Atlética Acadêmica Rocha Lima (AAARL), as duas associações estudantis da FMRP-USP. As referidas recentes manifestações, positivas, são listadas a seguir:

- Fórum de Ensino 2014 - “Pluralidade na Formação Médica” (05/2014); - O Básico do Médico: Importância do Ensino Básico e Pesquisa na Formação Médica (08/2014); - Baile Branco Comemorativo aos 60 anos da AAARL – Encontro com ex-alunos da FMRP-USP (09/2014); - XV Congresso Médico Acadêmico – CARL - - Deficiências, uma abordagem multidisciplinar (09/2014); - Show Medicina 2014 – Apresentação da Bateria com valorização da Cultura Negra no Brasil (10/2014); - XIV Encontro AAARL de Medicina Esportiva – Equipe Multidisciplinar no Esporte (11/2014);

Anualmente, na recepção aos calouros, a FMRP distribui material impresso com informações úteis aos seus novos ingressantes, material este, de cunho oficial, cuidadosamente preparado pela Comissão de Graduação. Logo, a distribuição deste material oficial não deve, e nem pode, ser confundida com outra(s) realizada(s) sem o conhecimento e aprovação da direção da FMRP-USP.

Quanto aos fatos veiculados pela imprensa, o que pode ser apurado, preliminarmente, é de que se se trata de uma publicação feita por alguns alunos da FMRP-USP, e distribuída aos calouros, com “músicas e letras” elaboradas por turmas anteriores. Este material não é de conhecimento da direção da Faculdade na totalidade, mas nota-se que pelo menos uma das músicas tem letra ofensiva a todo ser humano, e às mulheres de todas as raças. Vale ressaltar que esta percepção não é somente atual, mas deplorável em qualquer momento da história. O fato da alegação que esta publicação foi feita a partir de um arquivo antigo, e de que faltou cuidado na revisão do material, não abona a nossa consideração de que se trata de uma situação lamentável.

Temos a convicção que tal “música e letra” não é do conhecimento dos docentes da Faculdade, assim como não era do nosso conhecimento, e nem da grande maioria dos alunos da FMRP-USP. Por outro lado, destacamos que a referida “música e letra” não têm sido utilizada pela “bateria dos alunos” nos eventos estudantis dos quais temos participado. Esta afirmação é baseada na observação do comportamento habitual dos nossos alunos que temos presenciado, quando tem sido identificado um engajamento social muito grande.

Entretanto, este episódio, não deve, e nem pode, ser relevado, mas sim, utilizado para se iniciar um exame de como fatos tão negativos puderam, em algum momento, não terem sido identificados, e devidamente recriminados por toda a comunidade da FMRP-USP. Temos a convicção que os atuais responsáveis pela “bateria” e a AAARL também estão desapontados com este episódio, e com um enorme sentimento de se desculparem com a comunidade da FMRP-USP, e com toda a sociedade paulista, a qual mantém os seus estudos.

A direção da FMRP-USP reitera sua disposição de não compactuar com atos inapropriados, e manifesta que todos os fatos negativos que chegam ao conhecimento da Direção têm sido alvos de abertura de comissões disciplinares sindicantes e processantes.

A sociedade, de uma maneira geral, pode ter certeza que a FMRP-USP continuará sua firme missão de formar profissionais de saúde com capacitação profissional, formação humanística, e envolvimento social. Prof. Dr. Carlos Gilberto Carlotti Junior Diretor FMRP-USP Prof. Dr. Hélio César Salgado Vice-Diretor FMRP-USP

 

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