Sobre afeto e expressionismo

“Bracher – Pintura e Permanência” traz ao CCBB 86 obras do renomado pintor mineiro, além de recursos interativos

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Carlos Bacher já no Centro Cultural Banco do Brasil durante a montagem da exposição que celebra 57 anos de sua carreira
Lincon Zarbietti / O Tempo
Carlos Bacher já no Centro Cultural Banco do Brasil durante a montagem da exposição que celebra 57 anos de sua carreira

Com as pernas cruzadas, as unhas das mãos com restos de tinta e com um sorriso acolhedor, “peculiar aos mineiros” – diriam entusiastas da “mineiridade” –, Carlos Bracher fala sobre a exposição “Bracher – Pintura e Permanência”, que entra em cartaz a partir desta quinta no Centro Cultural Bando do Brasil. Ele conversa sobre sua vida e trajetória profissional com serenidade, para durante segundos em todas as respostas e elucubra frases filosóficas. “Essa exposição representa a soma de mim, daquilo que eu sou”, diz.

A comoção do artista de 74 anos com certeza não vem apenas dos 86 quadros reunidos, afinal, obras de sua autoria rodam pelo mundo constantemente – uma itinerante viaja há duas décadas pela Europa, por exemplo. Aqui, além de seu trabalho, estão reunidas forças afetivas intensas, como o laço familiar representado pelas filhas Larissa Bracher, responsável pela produção, e Blima Bracher, que roteirizou e dirigiu o filme que compõe a mostra. Ambas, aos beijos e abraços com o pai durante a montagem da exposição. “Ele é o artista brasileiro com mais exposições individuais fora do Brasil, mas esta é a primeira interativa e multidisciplinar”, diz Larissa. Ela se refere não só às aquarelas, aos catálogos, aos livros, textos, mas também aos itens particulares. Estes, responsáveis por ornar os ambientes que simulam o Castelinho dos Bracher, local onde o pintor passou a infância junto com sua família, em Juiz de Fora; e seu ateliê em Ouro Preto, cidade que tomou para si desde 1969, ano em que retornou de seu período de residência na Europa, decorrente do Prêmio Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Belas Artes. Assim, tomam forma outros fatores que reforçam os laços afetivos de Bracher com essa exposição. “Fiquei emocionado de ver os dois ambientes”, diz o pintor. Larissa, por sua vez, explica o porquê da simulação desses espaços. “A exposição celebra 57 anos de carreira do papai, queríamos mostrar ao público principalmente de onde ele vem, quais são as suas origens”, diz. A experiência é potencializada com a presença de músicas que o artista ouve enquanto pinta. “Quando ele gosta de uma música, a escuta por muito tempo. ‘A Paixão Segundo São Mateus’ (de Bach) é a preferida dele”, diz Larissa. Para completar, um aparato tecnológico permite a interação direta do público. “Teremos uma sala multimídia em que os poemas dele aparecerão, e cada movimento da mão da pessoa será representado por uma pincelada, igual à do meu pai”, explica. “Essa interação aproxima ainda mais as pessoas das obras”, diz. FASES. A postura contemplativa de Bracher transforma-se em um paradoxo quando considerado o conjunto de sua obra, conhecido, entre outras coisas, por retratar naturezas mortas, “montanhas” de Minas Gerais e autorretratos com firmes, porém inquietas pinceladas. “A obra do Carlinhos revela claramente uma ligação com o expressionismo, mas não de uma maneira racional, pois, quando ele começou, tinha 21 anos e não conhecia essa corrente. Por isso é algo genuíno dele”, conta Olívio de Tavares Araújo, que pela terceira vez assume o papel de curador da exposição do amigo. Na retrospectiva, as fases de Bracher – que parte da obscura dos anos 60, passando pelas influências do cubismo, em 1970, até chegar ao modernismo, que o acompanha desde 1990 – realçam a trajetória do pintor. Também estão presentes obras das famosas séries “Homenagem a Van Gogh”, “Do Ouro ao Aço”, “Brasília” e “Petrobras”. “Cada pintor tem um processo de desenvolvimento diferente. Alguns, como Monet, desdobram-se em si mesmos durante toda a vida; outros são contagiados por modismos e acabam perdendo a identidade. Eu vejo que as mudanças foram sutis”, diz Bracher. A leitura que Araújo faz da obra do amigo é igual: “Ele permaneceu fiel a si mesmo”, diz. “O mais importante de tudo é que a obra dele tem significado. Ele é o único artista de Minas que criou paisagens do Estado diferente das de Guignard, que tinha colorido suave e lírico. Bracher faz o oposto e cria uma estética trágica, drummondiana”, analisa o curador.

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