Relatos míticos não devem ter valor de narrativa histórica

Kleber Garcia Campos - Professor e escritor

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

“A tarefa do homem na vida é fazer sua caminhada de volta ao Pai”
Alice Garcia
“A tarefa do homem na vida é fazer sua caminhada de volta ao Pai”

O filósofo, ex-seminarista e teólogo Kleber Garcia Campos mergulha no fascinante mundo do Egito para estudar o pensamento desse povo tal qual expresso em seus principais mitos e alegorias no recém-lançado “Egito – Raízes Perdidas da Sabedoria Cristã”.

Qual o maior legado religioso do Egito antigo para o Ocidente? O monoteísmo do faraó dissidente Akhenaten parece ser o grande legado. Hoje há quem veja no conjunto mitológico do Egito não um politeísmo exuberante, mas uma visão da divindade em suas múltiplas manifestações. Há quem veja nos rituais de Waset ou Tebas (Amen-Mut-Khonsu) e de Abydos (Osíris-Ísis-Hórus) um prenúncio da visão cristã da família divina Pai-Filho-Espírito Santo. Há muito que se ler nas entrelinhas da teologia egípcia.

O Egito foi invadido pelos persas, gregos, romanos, judeus, árabes. O que sobrou da sua identidade cultural? Na realidade, o que sobrou está depositado no inconsciente e no subconsciente dos povos que invadiram e que herdaram, em parte, aquela cultura. Exemplo disso é essa nossa certeza da imortalidade do espírito e aquela saudade imensa que temos da vida estelar (celestial). Nos túmulos e textos que hoje conseguimos ler estão apenas algumas amostras da pujante história que as areias do tempo encobriram.

O que são mitos? São narrativas. O mito quer significar que cada ser humano haverá de pagar pelo seu comportamento na vida.

Quem é Wun Nefer? Wun = ser, Nefer = perfeito, Wunnefer é Deus, o ser perfeito. Esta expressão deu origemao nome Onofre.

Qual o papel das sacerdotisas? Sacerdotes e sacerdotisas tinham a função de presidir rituais, inclusive os iniciáticos. Em Iunu (Heliópolis) floresceu uma grande ordem iniciática com a progressão dos seus membros por meio de rituais.

Os egípcios, com os hieróglifos, manifestaram suas crenças em seres alienígenas? Hoje sei que existem grupos de estudo sobre o assunto. Sou muito curioso quanto à possibilidade, mas as afirmações não me parecem conclusivas. Sou fascinado quanto aos mistérios que envolvem as grandes pirâmides, que alguém já definiu como metáforas de pedra.

Qual o pensamento reinante da escola de Alexandria sobre Deus? Eles professavam a crença em um Deus transcendente e inatingível que se manifesta através do logos (palavra). Através dele Deus criou o universo, ou seja, tudo que existe. O logos, ao criar, tornou-se presente no universo e imprimiu nele a imagem do próprio Deus. A única forma de entrar em contato com a divindade é buscando sua imagem impressa no universo, pois ninguém jamais poderia estar frente a frente com o próprio Deus. Para eles, o espírito humano preexiste à vida em um corpo material e está junto a Deus em um plano etéreo. Ao tomar um corpo material, o homem assume todas as limitações terrenas. Sua tarefa durante a vida é a de fazer sua caminhada de volta ao Pai. Após a morte, ele deverá passar pelo tenebroso mundo inferior tal como o sol e a alma de cada indivíduo quando morre.

Como uma narrativa mítica deve ser interpretada?  Entendido ao pé da letra, o mito perde o encanto e a beleza. Torna-se, muitas vezes, um relato pobre que chega às raias do ridículo. Mas tem sido essa a atitude de maior parte dos leitores dos textos bíblicos em geral e dos evangelhos em particular. Em são juízo, nenhum intelectual antigo haveria de considerar verdade histórica o relato do nascimento de Rômulo e Remo, tal qual foi narrado por Tito Lívio, Plutarco e Dionísio de Halicarnasso. Diz o mito que a mãe daqueles gêmeos, Reia Sílvia, uma jovem vestal, filha do rei deposto de Alba Longa, foi engravidada pelo deus Marte, que sempre foi considerado o grande Deus protetor de Roma, fundada por Rômulo. O envolvimento de divindades com seres humanos causando o nascimento de crianças predestinadas a grandes feitos era comum entre os povos antigos. Afinal, aqueles deuses eram relativamente pequenos e concebidos à imagem e semelhança dos seres humanos.

Qual a visão dos egípcios sobre o autoconhecimento? Para eles, existia uma unidade em Deus, uma unidade no universo e uma unidade no ser humano. Ao lado da unidade, existia uma variedade de manifestações tanto do homem quanto do universo, quanto da divindade. Eles sabiam fazer distinção sem separação. Do ponto de vista das narrativas místicas, o homem de hoje tem dificuldade para entender essa unidade na distinção e dificilmente saberia distinguir espírito de alma.

Qual o legado astronômico dessa civilização? Eles notaram que há um conjunto de constelações que brilham sobre a linha do Equador e as chamamos de zodiacais. Viram que as constelações deixam de aparecer no céu por cerca de dois meses e meio a cada ano e após esse período reaparecem. Eles celebravam o retorno de Sírius na constelações de Cão Maior e a festa devia-se ao fato de que a volta de Sírius coincidia com a promissora cheia do rio Nilo.  

A jornalista Ana Elizabeth Diniz escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: anadiniz@terra.com.br

Mitos

Khnum molda na argila o corpo humano e Haqet infunde em sua narina o sopro da vida (ka) – O relato revela o cuidado especial que a divindade teve ao criar o homem, dotando-o de algo divino, que é o espírito ou sopro da vida superior

Paixão, morte e ressurreição de Osíris – Osíris é o protótipo do ser humano e o relato expressa a ânsia de se entender o que há de ocorrer com o homem após o inevitável momento da morte

O desfile do Sol como Hórus (criança), Ra (adulto) e Aten (ancião) pela abóbada celeste. A viagem do Sol é observável, mas seu relato passa a significar a condição humana de travessia pela existência terrena

O julgamento de Ba (princípio vital) antes de sua reunião com Ka (espírito) para se tornar Akh (o ser glorioso) – Ba deverá provar perante Anúbis que viveu de acordo com os 42 mandamentos divinos

O festival de Ta-o-pet. (reino dos céus) – Ele celebrava a união de Amen com Mut e o nascimento de Khonsu. O mito mostra a visão egípcia do eterno masculino unindo-se ao eterno feminino para geração do mundo, particularmente da espécie humana

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