As dificuldades do encontro

Atores veteranos diminuem sua produção ao longo da vida e constroem poucas parcerias com gerações mais novas

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Diálogo. Leitura do texto “Vendaval”, com Eliane Maris e Wilma Henriques. Texto de Glauce Guima e Junia Pereira vai ganhar montagem
ETHEL BRAGA
Diálogo. Leitura do texto “Vendaval”, com Eliane Maris e Wilma Henriques. Texto de Glauce Guima e Junia Pereira vai ganhar montagem

Envelhecer como artista de teatro não é fácil. São poucos os atores e atrizes que conseguem se manter na ativa com o correr dos anos. Talvez esse seja o reflexo mor da falta de conhecimento das gerações mais novas que começam a fazer teatro na cidade. A falta de comunicação entre mais novos e veteranos pode ser comprovada ao se debruçar sobre a atividade recente dos entrevistados no documentário “Primeiro Sinal”, em montagens teatrais nos últimos anos. Wilma Henriques, Eid Ribeiro, Rogério Falabella são exceções a essa regra.

“Viver de teatro sempre foi complicado, o emprego das pessoas começou a ficar difícil. Alguns foram para a publicidade e outros foram cuidar de sua sobrevivência. Raramente, um espetáculo consegue o sucesso para pagar a sobrevivência de seus artistas como é o ‘Espírito Baixou em Mim’”, comenta Eliane Maris, atriz. Esse foi um aspecto que chamou a atenção de Vinícius Souza, ator, dramaturgo e responsável pelo roteiro do documentário. “Algumas coisas são muito semelhantes. Ao mesmo tempo, são pessoas com muito desejo de fazer arte, mas, por outro lado, precisando dividir seu tempo com outras profissões. Acho que, embora tenha avançado muito nas políticas para a cultura, essa busca para conseguir viver de teatro parece a mesma”, avalia.

Maris também aponta uma diferença essencial que dificulta a participação de atores mais velhos nos espetáculos concebidos atualmente. “Os novos grupos que foram se formando, eles se resolvem por si mesmos. As pessoas não prezam mais pelo ‘physique dû role’ (expressão francesa muito usada para o cinema, quando, com uma ideia pré-concebida, o ator se ‘aproxima’ das características físicas do seu personagem). Os grupos se resolvem com aqueles que têm. Atores de 30 anos interpretam velhos, crianças… Isso amarrou os grupos dentro deles mesmo. O pessoal mais velho foi ficando de lado, deixando de ser convidados”, pontua a atriz.

Maris foi “descoberta” quando estava dentro de um coletivo e um passageiro lhe convidou para fazer um teste para uma peça. Assim, aos 17 anos, quando trabalhava em um escritório de contabilidade, ela foi representar “uma árvore, com uma ou duas falas” em uma montagem de “Chapeuzinho Vermelho”. Depois, ela foi estudar no Teatro Universitário, o T.U., e fundou o grupo, com Jota Dangelo e Raúl Belém Machado. “A minha escola foi o T.U., a base de tudo. Sem pieguice. Eu sou uma boa atriz, muito boa atriz. Essa base de me colocar em cena, de saber falar bem um texto, isso eu aprendi lá, onde se experimentavam as coisas. As coisas que vinham da Europa, da URSS, chegavam ao T.U.”, pontua.

Com o passar do tempo, a artista começou a se envolver na administração e gestão de espaços ligados à cultura. Assim, ela passou pelo Palácio das Artes, pelo Teatro Francisco Nunes e deixou sua veia artística de lado.

Atualmente, Maris projeta uma parceria com Wilma Henriques, em um novo espetáculo. “Vendaval” é uma peça escrita por uma dupla de jovens dramaturgas: Glauce Guima e Junia Pereira, o que comprova que o diálogo entre as gerações mais antigas e os artistas mais jovens é possível. O texto foi apresentado no ciclo de leituras dramáticas Janela de Dramaturgia. “É interessante notar que algumas coisas que discutimos hoje, sobre o teatro pós-dramático, por exemplo, são parecidas com algumas questões do teatro feito lá atrás”, aponta Vinícius Souza.Planos.

Agenda O quê. “Primeiro Sinal – História do Teatro em Belo Horizonte, dos Primórdios até 1980”

Quando. Hoje, às 20h

Onde. Teatro Marília (avenida Alfredo Balena, 586, centro)

Quanto. Entrada franca

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