A gênese criativa

Documentário busca memória dos primórdios da produção teatral de BH

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Raúl Belém Machado, figurinista e cenógrafo, faleceu em 2012
ANGELO PETTINATI / O TEMPO
Raúl Belém Machado, figurinista e cenógrafo, faleceu em 2012

Ser desprovido de memória histórica é uma constante do brasileiro de um modo geral. Quando se pensa nas artes cênicas e na efemeridade do aqui e agora intrínsecos a elas, a falta de memória é ainda mais premente. Tentando resgatar o elo perdido dos primórdios do teatro produzido em Belo Horizonte, o documentário “Primeiro Sinal – História do Teatro em Belo Horizonte, dos Primórdios até 1980” será lançado hoje à noite, no Teatro Marília.

“Não se pode negar esse passado. Às vezes, no afã de fazer da juventude, a gente se acha pioneiro, novos inventores da roda, mas se nós tivéssemos uma generosidade, a gente entenderia que as pessoas dessa época, as mais veteranas, por mais caretas ou ultrapassadas que elas possam ser, tiveram uma importância para a produção da cidade. É uma linha do tempo contínua”, comenta Chico Pelúcio, que assina a direção do documentário ao lado de Rodolfo de Magalhães.

O trabalho colheu depoimentos de 25 pessoas ligadas ao nascimento do teatro feito na cidade. Dentre eles, Carlos Rocha, Eid Ribeiro, Elvécio Guimarães, Haydée Bittencourt, Ione de Medeiros, Jota Dangelo, Júlio Varella, Neuza Rocha, Paulo César Bicalho, Pedro Paulo Cava, Priscila Freire, Raul Belém Machado, Rogério Falabella, Ronaldo Boschi, Ronaldo Brandão, Walmir José e Wilma Henriques.

O documentário nasceu como um projeto menor, do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro, ligado ao Galpão Cine Horto. Na época, o dramaturgo e ator Vinícius Souza, responsável pelo site especializado em teatro, Primeiro Sinal, seria responsável por conversar com “figurões” da cena local e fazer pílulas para o portal. “À medida que fomos recolhendo o material, depois de várias entrevistas, a gente percebeu que era um projeto que poderia ser mais amplo, poderia virar um documentário”, pontua Pelúcio.

“É um filme com sua precariedade técnica, de imagem e áudio, porque ele não se propunha a não ser nada mais que alguns vídeos de internet, mas acho que existe uma beleza nisso também, porque o que importa, na verdade, são os entrevistados e as coisas que eles dizem”, completa Souza. O documentário recebeu o apoio da Fundação Municipal de Cultura, por meio do projeto Adote um Bem Cultural.

Histórias engraçadas, inusitadas de um período em que o teatro ainda era feito nos salões paroquiais e contava com pouquíssima estrutura são resgatadas. No final dos anos 40, início dos 50 – longe da profissionalização, dos patrocínios e das Leis de Incentivo à Cultura que existem hoje - a luta que era travada pelos artistas de Belo Horizonte era para formar um corpo docente e ensinar os aspirantes a atores e atrizes, técnicas e a História do Teatro. Foram muitas idas e vindas até o Teatro Universitário se efetivar na cidade. Depois dele, o Teatro Experimental, comandado por Jota Dangelo, foi o grupo referencial da cidade, nos anos 60. “A primeira montagem de um texto do Beckett no país foi feita em Belo Horizonte, com direção do Dangelo. As pessoas precisam saber disso!”, ressalta Souza.

Tendo chegado a Belo Horizonte, em 1976, Pelúcio foi uma espécie de “farol” para indicar as entrevistas que deveriam ser feitas por Vinícius, com seus menos de 30 de idade. “Eu acompanhei parte dessa história e apontava coisas para ele: ‘Olha, tem essa história que é importante, tem esse modo de produção que também é’. O meu olhar era resgatar pessoas e características de uma época que era muito mais difícil que hoje. O valor do documentário é esse resgate. Creio que ajudou o Vinícius a mudar muito o modo de encarar as gerações mais velhas de artistas de teatro da cidade”, pondera Pelúcio.

“Na verdade, para mim, foi uma experiência espantosa em todos sentidos. Por me deparar com uma história que eu desconhecia. Eu passei pelo curso do Cefar e pela UFMG, e nunca se falou no teatro feito em Belo Horizonte. Ou seja, eu não sei de onde eu venho. Também fiquei espantado porque eu sou ator e me deparei com atores de 70, 80 anos e quando eles falavam do passado, o presente estava ali”, comenta Souza.

A importância de resgate e registro histórico promovidos pelo documentário se comprova realmente grande, pois depois das entrevistas filmadas, quatro dos entrevistados já faleceram: Raúl Belém Machado, Ronaldo Boschi, Haydée Bittencourt e Neuza Rocha.

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