Fila da adoção em MG tem seis vezes mais pais do que crianças

Exigência nos perfis, com preferência por bebês e meninas brancas, limita cadastro nacional

iG Minas Gerais | Bárbara Ferreira |

Cotidiano.As crianças do abrigo Lar Cristão adoram receber visitas. O carinho é livre e não há negação. A maioria afirma que gosta de brincar com as outras crianças e são felizes ali, mas sentem falta de uma família. No lar, são acolhidas crianças de 0 a 6 anos. Nem todas estão no cadastro de adoção, já que algumas podem ser restituídas a suas famílias de origem
MOISES SILVA / O TEMPO
Cotidiano.As crianças do abrigo Lar Cristão adoram receber visitas. O carinho é livre e não há negação. A maioria afirma que gosta de brincar com as outras crianças e são felizes ali, mas sentem falta de uma família. No lar, são acolhidas crianças de 0 a 6 anos. Nem todas estão no cadastro de adoção, já que algumas podem ser restituídas a suas famílias de origem

Na entrada do abrigo Lar Cristão, que fica na região da Pampulha, em Belo Horizonte, o silêncio predomina no início da tarde. Os pátios vazios não remetem a um local cheio de crianças, mas a justificativa está no horário, já que os 14 pequenos do lugar ainda estão acordando da soneca após o almoço. Neste momento, já é possível perceber barulhinhos de choros, a correria dos maiores e uma agitação no espaço. Ao avistar a reportagem de O TEMPO, os gritinhos das crianças aumentaram, e a excitação veio acompanhada da pergunta: “Hoje temos visita, tia?”.  

A espera pelos visitantes, por gestos de carinho e por atenção gratuita e genuína é a realidade de 692 crianças e adolescentes de 0 a 17 anos que estão, atualmente, na fila do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) em Minas Gerais. No paradoxo que permeia esse universo, 3.935 famílias estão na fila à procura de filhos adotivos. O número de pais supera em quase seis vezes a quantidade de crianças que aguardam por um novo lar. Potira do Carmo Almeida, psicóloga e coordenadora de uma das casas do Lar Cristão, explica que o problema ainda está no grau de exigência dos candidatos.

“As vezes a gente fica perdido, achando que tem tanta gente querendo e tanta criança à espera e eles não se encaixam. É justamente porque a demanda ainda continua para bebês, meninas e (crianças) brancas. O que não é o perfil da maioria. O grande fator que dificulta a adoção hoje é esse”, explica.

Além disso, Potira também chama a atenção para a idealização construída pelas famílias. Segundo a psicóloga, há uma imagem idealizada do bebezinho e isso não é a realidade da maioria das crianças acolhidas. “A busca é muito por uma bonequinha”, diz.

Os mitos e preferências ainda persistem mesmo nas famílias mais abertas à adoção. Mas a advogada e especialista em adoção Graziela Ferreira Alves acredita que o curso obrigatório oferecido pelas Varas da Infância e da Juventude aos pretendentes é uma boa forma de ruir esses preconceitos.

“Nem sempre a idade é um problema, mas a criança paga por alguma coisa que não fez. Meninas abusadas pelo pai biológico, por exemplo, ninguém quer, porque as pessoas acham que haverá um trauma, mas isso é totalmente possível de ser trabalhado desde que a família se estruture e saiba disso”.

Hoje não existe um tempo médio de permanência de crianças em abrigos, mas algumas podem alcançar a maioridade dentro desses locais. Também não há prazo determinado para que o processo de adoção se desenrole.

Vocação. O professor universitário Leonardo Ferreira Almada, 33, conseguiu adotar um menino de 3 anos em um processo relativamente rápido. Segundo ele, foram seis meses entre a habilitação para o procedimento e a notícia de que havia uma criança com o seu perfil. No caso de Almada, ele e a mulher optaram por crianças de até 4 anos e não fizeram restrições de cor, o que pode ter facilitado o processo. Para ele, adotar é uma questão de vocação para ser pai.

“Acho que qualquer pessoa está preparada para isso, desde que receba o chamamento para ser pai ou mãe. Não vejo nenhum mal em quem não tem esse sentimento, mas, se não o tem, é melhor não optar por ser pai ou adotar uma criança. Agora, se há a vontade, vale a pena, desde que não tenha preconceitos de que a família é apenas laço de sangue”, afirma o professor.

Números no país

A tendência de Minas Gerais segue os padrões nacionais e, assim como no Estado, a somatória de pais de todo o país é quase seis vezes maior do que as crianças que estão no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). São 32.611 pretendentes cadastrados no Brasil, frente às 5.655 crianças acolhidas. O número de pretendentes para crianças entre 0 e 7 anos permanece na casa dos milhares, enquanto os que aceitam crianças com mais de 7 anos vai caindo à medida que a idade aumenta. Enquanto 4.232 aceitam bebês, apenas dez pessoas aceitam adolescentes com 16 anos.

Cadastro unificado

Atualmente, o cadastro de crianças que aguardam a adoção é nacional, e uma família pode receber uma criança de qualquer Estado da Federação. A advogada Graziela Alves explica que, antes de 2006, vários pretendentes se habilitavam, de maneira separada, em diversas cidades pelo país, mas que agora há uma unificação tanto dos candidatos quanto das crianças. “É a promoção do encontro da criança com a sua família. Tudo observando sempre o melhor interesse da criança e do adolescente. Não se procura uma criança para um casal. Procura-se um casal para uma criança”.

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