“Imaginamos que todos saiam”, diz vice-presidente

Arlindo Porto Vice-presidente da Cemig

iG Minas Gerais | Helenice Laguardia |

“Quem tem 7,8 milhões de clientes, é natural que não consiga atender com a mesma exigência de cada cliente, é impossível fazer isso”
Arquivo Cemig/Divulgação
“Quem tem 7,8 milhões de clientes, é natural que não consiga atender com a mesma exigência de cada cliente, é impossível fazer isso”

Há cinco anos na Cemig, o vice-presidente da estatal revela, em entrevista a O TEMPO, acreditar que o aumento na tarifa não deve ser menor do que 16%; ele também afirma que a empresa é sustentável a ponto de garantir continuidade, mas ajustes virão com o novo governo.

Como a empresa está estruturada?

Nós vamos entregar a Cemig numa condição extraordinária. É só ver a linha do tempo da Cemig, que hoje é uma empresa muito respeitada, organizada e estruturada. São 11 diretores, seis são de carreira, só cinco são de fora. Seis vieram da empresa, alguns são aposentados, mas vieram da empresa. O governador Aécio e depois Anastasia e o próprio Alberto Pinto Coelho não se preocuparam em colocar lá só gente de partido, lá não há negociação partidária, são pessoas de confiança que eles quiseram colocar, e eu sou um exemplo. Djalma Morais está há muito mais tempo do que eu. E seis são de carreira, originários da Cemig. Qual é a autonomia da diretoria?

A Cemig tem uma estrutura de governança em que a diretoria não é tão autônoma assim de querer fazer o que quer, não. Lá é cheio de comitês, todo assunto tem que ser discutido pela casa. A Cemig tem 53 superintendentes e mais de 200 gerentes, tudo passa por uma hierarquia. A empresa tem um ordenamento de gestão muito tranquilo, muito equilibrado, não tem nada que se decide isoladamente. Você acredita que isso vai continuar na próxima administração?

Mudanças vão ter, sim. A política nossa é a de que, uma vez que precisa ter desenvolvimento, tem que ter expansão, tem que crescer, tem que dar lucro, tem que atender bem o consumidor e o acionista. Nós temos 125 mil acionistas em 46 países, e temos obrigação com essas pessoas. Tem que atender o consumidor e, para isso, tem os empregados. Poderá ter mudanças, uma filosofia diferente, mas a base não vai mudar na Cemig. Aquela questão dita pelo coordenador da campanha de Fernando Pimentel, de que o governador eleito iria rever a Cemig, você concorda com isso?

Eu não vou contrapor ao que foi dito em campanha. Tem 32 anos que eu comecei na vida pública, e estou fora há 12 anos, por opção, não quis disputar mais, então, sei como é isso. No entusiasmo e na empolgação da campanha, com a necessidade de argumento, às vezes se fala alguma coisa que não tem profundidade de conhecimento, não se sabe o que é. Quem conhece a Cemig sabe que não é assim. Nós temos um índice que a própria Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) fixa de satisfação do cliente, e a Cemig está sempre entre as primeiras do país. Mas existem muitas reclamações contra a Cemig, não é?

Quem tem 7,8 milhões de clientes, é natural que não consiga atender com a mesma exigência de cada cliente, é impossível fazer isso. Neste momento, inúmeros clientes estão sem energia, porque surge um fato qualquer, um acidente, queima alguma coisa. Quando se busca conhecer os números, a realidade da Cemig é outra, vende uma imagem diferente. Ah, a energia mais cara do Brasil é da Cemig, isso não é verdade. Quem define o valor de energia não é a Cemig, é a Aneel, e os custos são acompanhados por ela. O patrimônio não é da Cemig, o patrimônio é do governo federal. A gente se assustou um pouco com o reajuste de 54% no interior de Roraima. Aqui, podemos esperar algo assim?

Se forem remunerar o real, não vou dizer que chega a 50%, mas deverá ser como foi, ou então mais do que foi no ano passado, por volta de 16%. O aumento da tarifa, então, não vai ficar abaixo de 16% na Cemig?

Acho muito difícil, pois o custo da energia não é da Cemig, é o custo de toda a energia nacional. Hoje, nós estamos usando fortemente – e não desligou em nenhum momento – a energia térmica; e se tem energia térmica gerando esse tempo todo, ela tem que ser mais cara, e aí tem que ir (repassar) para o consumidor de todo jeito. O se que faz é uma composição de custo, que é controlada pelo próprio governo. E quem vai pagar essa conta?

Eu fico imaginando: o que será mais justo: o consumidor pagar ou o contribuinte pagar? Ou um ou outro tem que pagar. Essa é a regra. Quando existe uma concessão, o valor que tem apurado no seu custo tem que ser reembolsado. No ano passado, o contribuinte subsidiou parte do consumidor. Eu, particularmente, acho que o justo é que o consumidor pague o que é devido a ele. Tão cedo, então, teremos uma reorganização do sistema elétrico?

Se chover muito nos dois próximos anos, pode ser que no terceiro ano volte à normalidade. A Cemig, quando foi contra a medida provisória (MP 579), sabia que iria acontecer isso, foi anunciado. Mesmo assim, nós continuamos. E quem assumir a diretoria da Cemig vai assumir numa posição de poder dar continuidade, fazendo os ajustes, pois cada governante tem as suas prioridades.

Você arrisca falar o que eles vão querer mudar?

Não, até porque não é minha ideologia. Cada um tem sua política. Mas eu não tenho dúvida que a empresa é sustentável, é muito estruturada, a governança da empresa permite que haja uma continuidade. Ajustes devem ter. E o futuro do presidente da Cemig, Djalma Morais?

Entre os cem maiores CEOs do mundo, Djalma é o vigésimo, o único da América Latina. Só ele. Quem fez a lista foi uma revista vinculada à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Então, por que tem que mexer (na diretoria)? Tem 16 anos que está a mesma filosofia. Mas imaginamos que todos saiam. E você fica na Cemig?

Não, eu estou me preparando para sair. Tenho certeza deque não fico, porque institucionalmente é assim.

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