Compulsão por compras é doença que piora no Natal

Transtorno atinge entre 2% e 8% da população

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Kelvyn comprou um computador antes mesmo de receber seu primeiro salário
Lincon Zarbietti / O Tempo
Kelvyn comprou um computador antes mesmo de receber seu primeiro salário

Mal começou novembro e as ruas, lojas e shoppings já estão preparados para o fim de ano. Com a aproximação do Natal chega também a vontade de presentear familiares e amigos. Um período bastante crítico para quem tem oniomania – transtorno psiquiátrico marcado pela vontade de comprar compulsivamente. E então, o que era para ser apenas uma lembrancinha vira pesadelo, por causa das dívidas e gastos descontrolados.

“O final de ano é o pior momento. Você pensa que vai ter mais dinheiro por causa do 13° salário, acaba gastando antes e começa o ano com muitas contas, pagando dívidas do Natal passado, e isso vira uma bola de neve”, afirma o vendedor Kelvyn Pesso, 24. Comprador compulsivo desde os 16 anos, ele diz que o problema começou antes mesmo do pagamento do primeiro mês de trabalho. “Antes de receber o meu primeiro salário eu já tinha comprado um computador. Depois fui fazendo vários cartões de crédito, pegando dinheiro emprestado. Com mais crédito, parecia que tinha mais dinheiro”, lembra. De acordo com a psicóloga Tatiana Filomensky, o transtorno acomete de 2% a 8% da população no Brasil e é mais comum em mulheres de 30 e 40 anos. “O problema costuma se iniciar junto com independência financeira e a entrada no mercado de trabalho, mas como o ato de comprar é extremamente valorizado e estimulado, a pessoa demora a perceber que, aquilo que todo mundo faz, para ela é uma doença. Muitas vezes, quando resolvem procurar tratamento já endividaram a família e faliram. Isso não significa que são caloteiros, sem caráter. A intenção de pagar existe”, diz a coordenadora do grupo de tratamento a compradores compulsivos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). A estagiária de marketing digital Tabata Rodrigues, 22, conta que costuma descontar os problemas no shopping. “Sinto que, quando estou muito triste ou nervosa, acabo comprando mais. Entendi que tinha um problema quando eu comecei a não conseguir mais guardar minhas roupas no armário, e mesmo assim achava que precisava comprar mais. Eu já comprei luvas de boxe e nunca lutei”, diz. É essa incapacidade de autocontrole e o arrependimento que caracterizam a doença, segundo a psiquiatra Julieta Guevara. “Após um ‘porre’ de compras, o sentimento de culpa aflora, e a pessoa coloca as sacolas e embalagens no fundo do armário ou em locais onde não são fáceis de serem vistos. Alguns compram coisas repetidas por causa deste mecanismo”, explica a diretora da clínica Neurohealth. O uso de técnicas psicossociais, medicamentos, e em alguns casos, aprender a resistir às situações de compra são exemplos de método utilizados no tratamento da oniomania. “A exposição progressiva e supervisionada faz parte dos métodos comportamentais para a abordagem do problema. No caso do abuso em compras ser manifestação de outro transtorno, deve ser tratada a doença primária”, explica Julieta. 

Personalidade, ambiente familiar e até genética são causas da doença

Tristeza, angústia ou alegria. Vários são os sentimentos que podem motivar a compra desenfreada. “A melhor sensação do mundo é quando você está angustiado e compra alguma coisa. É como se estivesse fumando, uma sensação de alívio”, diz Kelvyn Pesso. Esse comportamento, segundo a psicóloga Tatiana Filomensky, pode ter influência tanto da personalidade do próprio indivíduo como do comportamento familiar. “Quando investigamos percebemos que na família existem outros casos de dependência tanto comportamental como química”, afirma. Tatiana afirma, no entanto, que alguns estudos, “ainda muito crus”, buscam estabelecer alguma relação genética. “Estudos mostram uma relação dos pacientes com baixos níveis de serotonina, isso gera mais dopamina, que libera a sensação de prazer, e as pessoas acabam ficando viciadas nesse comportamento para repor a sensação de bem-estar”, diz. 

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