Sobre espelhos, imagens e baixa autoestima

iG Minas Gerais |

Algumas invenções são tão fantásticas que nos envolvem. Invadem nossa vida e, muitas vezes, óbvias e simples, nem são reconhecidas, embora sejam essenciais. Espelhos são assim. Alguém se imagina sem eles, acordando desgrenhado pela manhã? Ou no trânsito insano prescindir de retrovisores? Ou, antes daquele encontro, não poder dar a conferida final? Tudo bem que espelhos nos incomodem ao denunciar as inevitáveis rugas, as celulites femininas, o peso adquirido nas férias calóricas, enfim, as imperfeições nossas de cada dia, que eles, implacáveis, delatam e denunciam. Mas intriga muito é o resultante do que essa superfície espelhada cria quando reflete os raios de luz, gerando uma imagem. Ali estamos nós e nossa imagem. Meu Deus! Como é difícil encarar a nossa imagem! Atentos aos defeitos, críticos ferrenhos de nós mesmos, a insatisfação se espelha em cada detalhe. Bem, exceção, talvez, seja para os malhadores compulsivos e vigoréxicos, ratos de academia, viciados em endorfinas e selfies, que humilham os pobres mortais. Sim, “Narciso acha feio o que não é espelho”, diria o famoso baiano. No geral, espelho é essencial, e somos dependentes da nossa imagem, seja para o bem ou o mal. Na verdade, ele nos persegue, e quantas vezes não nos assustamos ao nos encarar sem querer em escadas rolantes ou vitrines de shoppings, nos elevadores, na fachada de prédios, nas paredes decoradas de amigos ou em um pacato restaurante. Minha imagem me persegue, me aponta a idade chegando (que expressão mais estranha, não?), o corpo deformando, o cabelo rareando, as bolsas nos olhos, as rugas de expressão, exprimindo minha história de vida. Reflito, pois reflexão é uma propriedade inerente aos espelhos. E entendo que, para ser fidedigno, para que a verdade seja real, preciso que eu vire uma imagem projetada naquela superfície plana do espelho. Afinal, se espelho for côncavo, ou convexo, ou mesmo irregular, terei uma distorção da minha imagem, tipo espelho de circo, no qual posso me ver extremamente gordo, magro (é realmente um milagre), minúsculo ou agigantado. Então, penso que distorcer a realidade é algo tão simples como projetar imagem nos espelhos. Meio como o tal Photoshop. Não gostou do culote, tira! Insatisfeito com os pneus na cintura, tira! Quer melhorar a imagem? Corta daqui, faz efeito especial dali e joga nas redes sociais. Mas, no banheiro de sua casa, lá está o espelho e, dentro dele, impassível, sua imagem verdadeira, aquela que te incomoda, te censura, te condena a ter que ser perfeita, esteta, num mundo de imperfeições e imagens falsas, “photoshopadas”. Então entra a baixa autoestima. Tal qual um espelho de circo, eis que as pessoas estão tão superficiais, materializadas, preocupadas com a aparência e a opinião alheia, que, em um estudo com mulheres entre 14 e 40 anos, 95% eram insatisfeitas com a própria imagem e queixavam-se de baixa autoestima. Achei por bem refletir sobre a cultura da perfeição dos corpos, das dietas insanas, das modelos anoréxicas e do consumo irrefreável da aparência perfeita. E como amo sol, caloria, imperfeições, rugas ,tentar dizer às mulheres atuais, independentemente da idade, que o melhor remédio para baixa autoestima é não seguir padrões, formas, modas. É assumir que ninguém é comparável a ninguém, que os encantos são muitos, e olhar para o espelho, mirar sua imagem e gostar-se antes que te gostem é muito gostoso. Ria de si mesma, assuma sua forma, expresse suas opiniões, entenda sua falibilidade. Acima de tudo, relaxe. Resgate prazeres proibidos, retome a alegria de casar consigo mesma. Garanto que a gostosa da esquina sofre para ser apenas isso, a gostosa da esquina. A modelo adoraria a torta de chocolate e os excessos de uma longa noite de verão. Chega dessa ditadura da boa forma, da repressão às rugas de expressão, ao peito que cai, à bunda sem moldura. Saia de dentro do espelho das redes sociais, liberte-se da imagem de ser bem-torneada. No fundo, autoestima é não abrir mão de ser e existir no mundo, sendo como se é, não tendo a pretensão de se achar, nem a neurose de se esconder! Algo assim antinarcísico, despretensioso, imperfeito, real, natural. Viva o comum, o mediano, o desencanado. Goze a vida relaxadamente. Saia do espelho, seja real!

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave