Jorge Luis Borges analisa a delação premiada de Judas

iG Minas Gerais |

No próximo capítulo, a primorosa análise de Borges sobre o mais infame dos crimes: a delação premiada
Intervenção sobre “Cristo e Judas”, afresco na igreja de Atotonilco (México, século XVIII)
No próximo capítulo, a primorosa análise de Borges sobre o mais infame dos crimes: a delação premiada

Aos quinze anos decidi – por gostar de ler – me tornar escritor. Nascido numa minúscula cidade de 3.000 habitantes, rareavam alternativas. Jogador de futebol e cantor (sonhos que o rádio trazia), fantasias improváveis. Padre, médico e engenheiro estavam mais à mão, dependendo de financiamento paterno nos dois últimos casos. Padre era mais fácil. Bastava levantar o dedo para ser internado em seminário, no qual se estudava muito e se vivia pouco. Constituía a primeira opção de famílias pobres ou avarentas. Salvou-me das ladainhas tia Ignez, que me deportou para a capital, com bolsa de estudos no Marconi, além de cama e mesa na casa do tio Costinha. LÍNGUAS VIVAS Dos 15 aos 20 anos li praticamente tudo o que se escreveu de bom, mediano, ruim e péssimo em português. Média de um livro por dia, às vezes dois, quando mais pequetitos. Foi quando entrei para a Starlight (agência de propaganda do Orlando Junqueira) e conheci gente que lia inglês, francês e espanhol. Bestifiquei-me: então era isso! Não bastava ser leitor em português. Hélcio Deslandes, arquiteto e diretor de arte, ria na minha cara: “Literatura brasileira não existe”. Huáscar, advogado e diretor de criação, que detestava literatura e adorava psicologia, ria na minha cara: “Impossível pensar em português”. Exagero deles, mas não muito. Que fazer? Aprender línguas, é lógico. LEITURAS VIVAS Então saiu na revista “Senhor”, a mais bonita já publicada no Brasil, um conto de Kafka, “A Metamorfose”. Entusiasmado, quis mais. Para ter mais, fui obrigado a comprar “O Castelo”, em espanhol da Argentina. Então descobri o Joyce dos contos (lançamento da Civilização Brasileira dos bons tempos) e quis mais. Não tinha. Daí que fui obrigado a importar “Ulisses” em espanhol. Freud em português? Não tinha. Mas era possível em espanhol do México. Aliás, e já contei isso aqui noutra crônica, cheguei a possuir três edições do “Ulisses”, em espanhol, francês e inglês, já que Houaiss mal começava a pensar na hipótese de talvez, quem sabe. Sendo assim, dá pra desconfiar porque Borges escolheu nascer na Argentina. ALMAS MORTAS No mesmo ano do razoável “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881), saiu na Rússia “Os irmãos Karamazov”. Enquanto Balzac publicava “As ilusões perdidas” (1837-1843), nossa ficção se contentava com “A Moreninha” (1844), do insípido Macedo. O indispensável “Madame Bovary” é de 1857, mesmo ano de “O Guarani”, que matou de vergonha os personagens. Nos Estados Unidos, Poe publicou “Os assassinatos da Rua Morgue” em 1841 e, dez anos depois, Herman Melville lançou sua formidável epopeia “Moby Dick”, anunciando o que viria pela frente. BORGES VIVO Certos indivíduos dão sorte na vida. Nascido na Argentina de uma mistureba de povos, o futuro gênio cego passou cerca de dez anos na Europa, vivendo e aprendendo. Mais aprendendo do que vivendo. Enquanto isso, Graciliano Ramos vendia chita, fazia filhos e bebia cachaça nos cafundós das Alagoas. Quando voltou a Buenos Aires, Borges tinha na cabeça a literatura de todos os povos, especialmente as de língua inglesa, alemã e hebraica, sem falar no profundo conhecimento de grego e latim. Pausa. Costumo imaginar que não se pode ser escritor dominando uma língua só. Não digo falar, que até papagaio fala duas ou mais línguas. Da mesma maneira que macaco dirige automóvel: por empatia com os humanos. Sem querer ser maledicente, conheço dúzias de analfabetos em várias línguas. Assim, a condição básica para se tornar escritor é conhecer pelo menos uma ou duas línguas, além da materna. Fora daí, meu irmão, o máximo será a imortalidade bolorenta da ABL.

GÊNIOS E GÊNIOS Apesar da vasta cultura, Borges não seria quem é sem o guru Franz Kafka. Da mesma forma, Joyce não seria quem é sem a “Odisseia”, de Homero. Por outro lado, Guimarães Rosa não existiria sem o “Ulisses”, de Joyce. Publicou-se, há bastante tempo, uma antologia ainda relevante reunindo os 30 melhores contos de Machado de Assis. Digamos que, desses, metade seja boa literatura. Por outro lado, meio século depois, começa a ficar claro que Guimarães Rosa está condenado a viver no limbo dos congressos literários e, infelizmente para ele, nos concursos de redação. Até recentemente (não sei se o fenômeno continua se repetindo), todo ano um bando enorme de universitários se reunia para discutir as sutilezas verbais da obra de GR. Grana e mais grana era torrada para resultar em meia dúzia de tratados que ninguém lia, mas enchia currículos. Com Borges o patamar é outro. Contista, não tem “melhores contos”. São todos fascinantes. Por outro lado, uma coisa é comemorar o “Bloomsday”, com uma festa anual em várias partes do mundo. Outra, uma chusma de gente graúda discutir os amores ambíguos de Riobaldo e Diadorim e as diversas formas de nomear o diabo, além da metafísica chinfrim em que Deus, se falasse, falaria mineirês. Com o exagero que reconheço em mim, começo a acreditar que o “Grande Sertão” não passa de conto de fadas para eruditos. ASSIM O CARRO NÃO ANDA Os dedos deslizam, as linhas se amontoam, o espaço acaba, acabou. O conto que pretendo comentar é “Os Três Judas”, um dos brilhantes paradoxos de Borges. Fica para a próxima semana. Sei que síntese é fundamental, mas não é o caso. Se Borges odiava amontoar advérbios, nem por isso se recusava a longas e delirantes digressões, como no caso da delação premiada de Judas.

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