Onde foi parar a criatividade?

iG Minas Gerais |

Estamos em novembro, e o comércio se prepara para o Natal. Está chegando o tempo dos “pulinhos” no shopping para comprar os presentes para a família e os agregados. A internet ajuda muito, mas para comprar roupas ainda se precisa de um pouco de coragem. Afinal, ver, tocar, experimentar faz parte do ritual de compra. Entretanto, as empresas de vestuário não andam reclamando, pois veem suas vendas crescerem constantemente. Então vamos lá, ao shopping, comprar. O quê? Uma blusa? Bem podemos escolher entre as básicas e as estampadas de onças, leopardos, zebras etc. Uma blusa com flores? Existem diversas, todas tão bem estampadas pela nova tecnologia digital que parecem verdadeiras. E parecem também que saíram do mesmo canteiro. Outra opção: tribal. O problema é que a inspiração dos designers também saiu da mesma tribo. Básica, bichos, floral, tribal… Em algumas lojas me sinto presa no zoológico, na jaula das feras. Nem uma pecinha de roupa deixa de ter as manchas do leopardo, do tigre, algumas vezes misturadas com flores ou detalhes barrocos, que foi outra estampa que pegou e que não quer sair das vitrines. Estou me sentindo no século XVIII, em que os modelos eram os mesmos e o que variava (pouco) eram os bordados dos vestidos. Afinal, onde anda nossa criatividade? Um shopping que congrega as melhores marcas deveria, pelo menos, ter sortimento, variedade. Ah, e que tal desistir dos shoppings e ir até o Barro Preto, afinal, lá fica a maioria das confecções mineiras. Desista. Tudo é a mesma coisa. Você só vai sentir a diferença no calor. A criatividade é alimentada por vários fatores: experiências, viagens, leitura, experimentações, testes, erros e acertos. Mas não dá tempo né? O trânsito dificulta o deslocamento, as mídias sociais não nos deixam contemplar uma paisagem nem sequer pensar em um livro. As viagens estão mais preocupadas com os “selfies” “Vejam, estou aqui, na Torre Eiffel”, o que impede de admirar sua intrincada estrutura de ferro, as formas geométricas que podem ser vistas em cada pedacinho dela. Ah, tem também o custo Brasil. Poucas tecelagens ainda oferecem produtos para mercado interno. É mais barato comprar tecidos chineses (quase sempre 100% poliéster = sentir um imenso calor) e ter um lucrinho a mais lá na frente. Bem, moda é um negócio como outro qualquer, e quem trabalha com isso sabe que tem que sobreviver. Então, se há uma maneira de driblar os monstruosos custos de impostos e energia, quem é louco de virar as costas para essa possibilidade? Ah! E a criatividade? Será que ela sobrevive à política econômica do país? Aos novos valores disseminados pela mídia social? Às exigências de lançamento de quatro coleções por ano? Os antigos pintores, escultores, escritores fiavam-se nas suas “musas” metafóricas para se encher do poder criativo que os colocava trabalhando 14 horas por dia. Sim, porque criatividade vem com suor. A “musa”? Acho que está se deleitando nas praias paradisíacas da ilha de Santa Lucia, no Caribe, e não está com a menor vontade de regressar para esse mundo real. Mariana de Faria Tavares Rodrigues é mestre em moda, pesquisadora de história da moda e docente no Centro Universitário UNA. Ela divide este espaço com Jack Bianchi, Lobo Pasolini e Tereza Cristina Horn

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave