Alegria pelo sucesso amoral

Experiente, ator conta que, em um primeiro momento, achou difícil compor o papel por suas características

iG Minas Gerais | luana borges |

Humor. Tato afirma que, mesmo com o comportamento de mau caráter, personagem consegue extrair a comédia
Jorge Rodrigues Jorge/CZN
Humor. Tato afirma que, mesmo com o comportamento de mau caráter, personagem consegue extrair a comédia

O discurso tranquilo de Tato Gabus Mendes evidencia a experiência de quem conhece bem os mecanismos da televisão. Mas os quase 30 anos de carreira não impedem que o ator ainda se surpreenda com a profissão. Foi o que aconteceu ao ser escalado para interpretar o encostado Severo, de “Império”. Além de ser um personagem polêmico, que explora os filhos para levar uma vida mansa, essa é a primeira vez que Tato integra o elenco de uma novela de Aguinaldo Silva. “Eu me surpreendi com o convite pelo fato de nunca ter trabalhado com ele e por ganhar a oportunidade de fazer um personagem como esse, que, em um primeiro momento, pensei: ‘É difícil’”, assume, aos risos. Nas ruas, Tato também teve outra surpresa. Ao contrário do que esperava, a repercussão do papel tem sido positiva. Volta e meia, o ator é abordado por pessoas que admitem se divertir com as atitudes condenáveis de Severo. “No início, a gente tinha um pouco de medo que houvesse uma rejeição porque essa família é completamente incorreta, de um caráter muito duvidoso. Mas acabamos criando uma empatia com o público”, conta ele. Filho do renomado autor de novelas Cassiano Gabus Mendes, falecido em 1993, e sobrinho de Luis Gustavo, Tato conviveu desde cedo com o universo da televisão. Por isso, foi natural que optasse pela atuação como carreira. Resumidamente, Severo é um homem que não gosta de trabalhar e é capaz de explorar os próprios filhos para conseguir dinheiro. Diante desse perfil, chegou a temer uma rejeição do personagem por parte do público?

No início, a gente tinha um pouco de medo. Mas aconteceu o contrário pelo fato de termos levado para o lado do humor. E o texto também é muito engraçado, apesar de tratar de comportamentos condenáveis. As pessoas brincam muito comigo, ao mesmo tempo que falam: “Essa família não presta, mas está muito engraçado, estou adorando”. Mas como você encontrou essa possibilidade de explorar o humor?

Na verdade, como a gente não tinha lido o texto pela sinopse, não sabia que eles seriam tão contundentes na coisa de explorar os filhos, nesse caráter. Sabíamos que era uma família simples, que vinha do interior e que o Severo foi um funcionário público que conseguiu ser demitido. Então, quando lemos o texto é que vimos que o caminho mais indicado seria esse de tentar ir para o lado do humor para amenizar um pouco o que poderia até criar essa rejeição ou chocar as pessoas. Diante de todos os exageros e desvios de caráter de Severo, você acredita que é um personagem possível de existir fora da ficção?

Posso falar que já encontrei várias pessoas que me contaram histórias de parentes com ações iguais às dos personagens do meu núcleo. A verdade é que, infelizmente, tem gente assim mesmo. Aliás, por se tratar de uma família polêmica, algumas cenas do seu núcleo acabaram sofrendo cortes ou ajustes. Como encarou isso?

Minha primeira reação foi achar um pouco estranho. Primeiro, porque a gente não sabe a origem. Se é só uma censura interna natural da Globo encarando sua responsabilidade em não exagerar em certos assuntos ou se foi uma coisa de fora, do Ministério Público. Não sei dizer com certeza. Acho que, de certa forma, qualquer restrição não vai ser agradável e nem útil. Se você mudar de canal e estiver passando um filme, vai ver que naquele filme tem coisas dez vezes piores. Que lógica é essa? É meio sem sentido. Estou falando nos dias de hoje. Nós já passamos por ditadura, por grandes censuras, meu pai ainda era vivo. Convivi com tudo isso. Então, me decepcionou um pouco. Mas eu procuro entender.

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