Paz roubada

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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Alguns anos atrás, na véspera do Natal, ganhei um presente nada agradável. Arrombaram o meu carro e roubaram meus CDs preferidos. O estrago poderia ter sido pior se ele não tivesse alarme... Teriam levado também o CD player, o que não fizeram apenas porque não deu tempo. O alarme tocou, eu corri até a janela e ainda vi os marginais correndo. Em seguida, baixei o olhar para o meu carro, já com o coração apertado. Constatei que o vidro estava quebrado e, o porta-luvas, vazio. Outro dia, minha avó foi a um casamento. Ao chegar em casa, se deparou com o portão aberto. Pior foi, ao entrar, perceber que estava faltando o aparelho de DVD, uma bicicleta e até roupas que estavam dentro do armário. Minha avó, que já custa a sair de casa, perdeu mais ainda a vontade. E nós perdemos a coragem de deixar que ela fique lá, sozinha, por menor que seja o tempo.  Em um Carnaval passado, eu vinha voltando com minha prima para a pousada onde ficamos hospedadas, em Tiradentes. Estávamos conversando, felizes e sem preocupação, quando de repente dois sujeitos armados apareceram. Roubaram minha bolsa, a máquina fotográfica e até a bandana que eu usava no cabelo! Estragaram o meu Carnaval. Hoje de manhã, minha tia foi até a garagem e teve a desagradável surpresa de constatar que o carro tinha sido arrombado dentro da sua própria casa. Danificaram a porta por maldade, porque de lá não havia nada para ser tirado. Minha tia, que teve o som roubado em outras ocasiões, já tinha perdido a graça de ouvir música no carro e andava sem rádio. Agora, perdeu a graça de dirigir. Em uma ocasião, meu amigo precisou ir ao banco 24 horas. Voltou para o carro escoltado por dois assaltantes. Fizeram com que ele passasse em outros bancos e sacasse ainda mais dinheiro, se apossaram do celular dele e de sua pasta de trabalho, o largaram do outro lado da cidade e fugiram em seu carro. Que espécie de vida é esta em que não podemos ir para o trabalho escutando a música de que gostamos? Em que precisamos comprar mais e mais equipamentos de segurança para nos proteger? Em que não podemos sair sem olhar 20 vezes para cada lado? Em que ficamos cada dia mais enclausurados dentro de nossas próprias residências, com medo de ser abordados no meio da rua? Em que, mesmo dentro de casa, corremos o risco de danificarem os nossos bens? Não sei. Mas provavelmente não é o jeito certo de se viver. Deveríamos ter a liberdade de sair pelas ruas sem nos preocuparmos em segurar a bolsa na frente do corpo ou com segurança para abrir os vidros do carro se o calor for muito. Sem ter medo daquela pessoa que nos aborda no meio da rua pra fazer uma simples pergunta. Sem precisar estar em estado de alerta 24 horas por dia. Dizem que essa vida que eu desejo só existe no passado. Não acredito. Em alguma parte desse mundo as pessoas ainda devem viver livres. Se eu encontrar esse lugar, vou correndo para lá. Para que os meus filhos, se eu os tiver, possam ter a infância que eu tive. Para que não precisem passar pela frustração de viverem presos sem terem cometido nenhum tipo de crime. Para que eles possam viver com a certeza de que ninguém vai roubar deles o seu maior bem: a paz.

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