Escrever em viagem de trem

Percurso de ferrovia pelo interior da França atrai 16 mil escritores para 24 vagas em um quartinho com vista

iG Minas Gerais | Doreen Carvajal |

Estação. Trem sai de Paris com destino à Riviera Francesa, com chegada em uma estância de verão
NYT
Estação. Trem sai de Paris com destino à Riviera Francesa, com chegada em uma estância de verão

Paris, França. O TGV saiu de Paris como uma faixa prata e azul, rumo à Riviera Francesa, a 322 km/h. Essa é a velocidade ideal para emergências literárias, já que nela é impossível se sentir frustrado. Minha passagem me levaria a Saint-Raphaël, a popular estância de verão com quilômetros de praias na beira do Mediterrâneo, e para um retiro para escritores com bloqueios criativos, em busca da luz do sol e de inspiração.

Mas o destino não era tão importante quanto a viagem. Eu tinha uma missão para as cinco horas que passaria no trem: terminar de escrever um livro que vinha evitando acabar. E minhas armas seriam um iPad, a janela, a inspiração. A cabeça funcionando a todo vapor.

A ideia de transformar o assento 16B em um estúdio veio de uma promoção da Amtrak nos EUA, que oferecia uma espécie de residência para escritores que vivem com o pé na estrada. Apesar de estranha, ela se beneficiou da publicidade gratuita nas redes sociais e atraiu 16 mil inscrições para as 24 vagas dos escribas que foram escolhidos em setembro para viajar em um quartinho com vista.

As dependências do trem são equipadas com cama, mesa, serviço de quarto e entrega de refeições; mas não há nada similar na França, onde o serviço ferroviário nacional segue uma abordagem literária diferente. Em algumas regiões, há livrarias digitais com títulos disponíveis com download gratuito para computadores ou tablets. E em setembro foram distribuídos aos passageiros 120 mil livros, títulos dos vencedores de um concurso anual de romances policiais. São promovidos online com um slogan atraindo os leitores para o trem: “Os livros adoram trens. Viaje com um na mão”.

E então lá estava eu, na linha Paris-Nice do TGV, depois de pagar US$ 200 pela passagem de ida e volta. A viagem começou no cinza escuro da manhã, na Gare de Lyon, com seu estilo art nouveau e a torre do relógio que dá para um bairro periférico no sudeste de Paris.

No meio do caminho, depois de duas horas de viagem, normalmente um momento de clareza vem para animar qualquer escritor desalentado: o céu nublado dá lugar à brilhante luz solar da Provença – e a paisagem se transforma em campos de girassóis. O brilho repentino muda o humor. Você sente um formigamento na pele, uma tontura. É sempre um momento para meditar sobre a liberdade dos trens e a demorada arte da viajar – entrar em um vagão esperando que a inspiração chegue.

A Côte d’Azur e seu sol, que brilha quase 300 dias por ano, atraem artistas e escritores – e passageiros de trem – como Matisse, Picasso, Hemingway, Fitzgerald e Graham Greene.

“Está quente, o sol está brilhando, as janelas do meu quarto – e da minha alma – estão abertas”, escreveu Anton Tchekhov durante o tempo em que passou em Nice para terminar de escrever “As Três Irmãs”.

Eu realmente precisava desse estado de espírito. Um ano atrás, escrevi a proposta do livro que há muito está adormecido, mas até então esquecido. A ideia permaneceu, desafiadora, algo a que precisava voltar. Mas eu sabia qual seria a solução quando, no início deste ano, vi uma antiga máquina de escrever Remington em uma exposição de Paris que exibia os vagões de passageiro originais do Expresso do Oriente.

No vagão Golden Arrow, com painéis de mogno cubano e ninfetas de Lalique, havia uma mesa em homenagem ao escritor Graham Greene. Ao lado da Remington havia uma cópia amarelada da obra “Trem de Istambul”, papéis de carta, um isqueiro de prata e uma garrafa de gim Old Lady’s pela metade.

Era o próprio Graham Greene, morador da Riviera Francesa, que publicamente se deliciava com a liberdade literária das viagens de trem, longe da distração de telegramas e cartas.

“Gosto da paisagem se movendo. De certa forma, a qualquer momento algo pode acontecer, mas ao mesmo tempo, estamos seguros no vagão”, disse ele em entrevista em 1968.

Segui esse conselho. Voltemos ao TGV Paris-Nice das 7h45. Instalei-me em um assento estofado na janela, pensando na história de amor de minha família com os trens e no bê-á-bá da escrita que eles conheciam melhor que eu. Não há maneira melhor de se escrever um livro do que labutar todos os dias, o dia todo, como um funcionário da estrada de ferro.

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