Amigos de várias esquinas

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Sem modéstia, Luiz Carlos Pereira de Sá e Alberto de Castro Guedes concordam: a década de 70 foi de ouro para a música popular brasileira. Logo no início da década, Chico lançou “Construção” (1971), seguido por “Transa”, de Caetano, “Pérola Negra” (1973), de Luiz Melodia, “Loki?” (1974) de Arnaldo Baptista e “Refazenda” (1975), de Gil. Mais conhecidos como Sá – parceiro de Guarabyra – e Beto Guedes, respectivamente, os músicos também marcaram seus codinomes na nossa história fonográfica com os clássicos “Passado, Presente & Futuro” (1972) e “Clube da Esquina 2” (1978). Várias dessas pérolas setentistas poderão ser ouvidas no show único que eles fazem juntos na próxima quinta (13), no Sesc Palladium. Em apresentação dividida em três partes, a dupla e o compositor multi-instrumentista mineiro cantarão dez músicas cada, e se juntam para o terceiro ato, fechado com “Caçador de Mim”, “Espanhola” e “uma terceira surpresa”, segundo Guedes, que afirma amar “aqueles caras”. O trio já dividiu o palco em 2012, quando excursionou com o mesmo formato de show, mas a afinidade entre eles já dura mais de quatro décadas. “A gente sempre teve uma identificação muito grande. Sem nenhuma modéstia, a nossa geração foi parte de uma era de ouro. Naquela época o clima ditatorial nos deixava muito tensos e só sobrava a música como nossa válvula de escape. Com todo o estresse, a gente tinha ansiedade por produzir, estudar, procurar coisas novas, por buscar saídas na música. A nossa saída em particular foi pegar o country rock norte-americano e juntar com a música sertaneja de raiz. O Clube da Esquina também bebeu muito da raiz mineira e misturou com a paixão deles pelos Beatles. Por isso deu no que deu”, comenta Sá, complementando que a coincidência entre o movimento liderado por Milton Nascimento, Lô Borges, Wagner Tiso e Beto Guedes e a dupla de rock rural é tanta que, até hoje, muita gente imagina que Sá e Guarabyra sejam mineiros. Hits e novas “Essa cultura mineira da música sempre foi uma coisa muito próxima da gente. É uma amizade que já vem de muitos anos. Esse pessoal de Minas é tipo uma sopa de notas musicais: é só mexer que dá música”, afirma o artista carioca, que há oito anos escolheu Belo Horizonte como lar. “É oferta de dois por um, tipo no supermercado, sabe?”, ri. “É sempre uma alegria tocar com o Beto. Estamos em casa. Mas como a gente não pode tocar por umas três horas, vamos escolher algumas coisas bem especiais”, confessa Sá, deixando transparecer alguma pequena mágoa com o público, que muitas vezes faz dos grandes músicos “lendas vivas” e prisioneiros dos próprios sucessos. “Acho engraçado é que toda a nossa geração continua produzindo, mas a gente quase não tem ocasião de colocar essa produção pra fora. As pessoas querem mais os hits do que tudo. Nós abrimos muitas estradas e o jovem quer ouvir aquilo que marcou época. Focados na história, as músicas novas ficam de lado”. Em 2010 a dupla lançou um disco só de inéditas (“Amanhã”), mas, de acordo com Sá, eles continuam sendo aquele “sertão virando mar”. “É uma luta”, desabafa o artista, que garante seguir tentando emplacar novos sucessos. Ele e Guarabyra já conversam sobre um novo disco para o ano que vem, o primeiro desde a morte repentina de Zé Rodrix (em 2009), que havia retomado a parceria com a dupla em 2001 – ele partiu às vésperas do lançamento de “Amanhã”. Sobre os hits, entretanto, Guedes não corrobora a opinião do amigo. Para ele, se não tiver “Satisfaction” não é show dos Stones. “Se Jagger não cantar ele tá n’água!”, brinca o mineiro, que ultimamente dedica mais tempo à fabricação de uma dúzia de guitarras do que de novas canções. Beto Guedes e Sá & Guarabira Sesc Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, centro, 3214-5355). Quinta (13), às 21h. Plateia 1, R$ 70; plateias 2 e 3, R$ 50 (inteiras).

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