Decisão no terreiro

iG Minas Gerais |

Se você não gosta de futebol, meu conselho hoje é seguir adiante. Vá para as próximas páginas ou se aventure em outra seção, caso esteja lendo este texto pela internet. O tema era outro. Para falar a verdade, a coluna já havia sido escrita e precisou ser apagada. Aos 45 minutos do segundo tempo, com uma dose de adrenalina que parece não querer abandonar o meu corpo, as palavras foram fluindo e preenchendo novamente este espaço: bola, apito, paixão, desespero, raça, técnica, coragem, acréscimos, torcida, emoção, vontade, comentários, abraços, vibração, tensão, perseverança, “eu acredito” e gols... Ok, já não é segredo para ninguém o meu amor pelo Atlético, isso foi revelado em algumas crônicas. Também confesso que, em minha opinião, seria bem mais fácil enfrentar o Santos. Evitaria, ainda, os transtornos corriqueiros com queridos amigos e familiares cruzeirenses. Mas, por outro lado, Minas foi à forra. E, vamos combinar, há um prazer especial nessa dupla conquista. O Brasil inteiro olha, agora, para o nosso Estado em festa. Atlético e Cruzeiro estão topo do futebol nacional. Pela segunda vez na história, uma Copa do Brasil vai ser decidida com um clássico estadual. A primeira foi em 2006, entre Flamengo e Vasco. Agora é aqui, fora do eixo Rio-São Paulo. E não vai ser fácil. Na minha opinião, será razão x coração. O Cruzeiro chega com um elenco alinhado, superior tecnicamente. O grupo do equilíbrio. No Atlético, prevalece o improvável. A raça é assinatura capaz de tantos milagres. Time da superação. Ontem, BH estava em festa. Sensação de euforia. Os rivais até sorriam uns para os outros, mesmo que um sorriso de canto de boca. Todo mundo feliz e, de alguma forma, vingado. A imprensa nacional havia sido muito cruel com os times mineiros antes dos jogos que levaram à final. Não é questão de bairrismo, mas Cruzeiro e Atlético foram subjugados inúmeras vezes. Mas, voltando à manhã de ontem, acordei cedo e logo saí de casa. Não há sensação melhor que desfilar pelas ruas da cidade no dia seguinte à vitória do seu time de coração. Todo bom torcedor sabe disso. O peito inflado, camisa no corpo ou bandeira no carro. De uma forma ou de outra, os torcedores comuns se reconhecem, se identificam, esbanjam marra... coisas que só o futebol consegue provocar. Eu mesma não consigo esconder alegria, muito menos poupar simpatia. Quase não dormi, mas isso pouco importava. E tão cedo já trocava buzinas e acenos com carros de outros atleticanos. Tenho uma mania estranha de contar as camisas de time rua afora. Agora, até meu filho já herdou a esquisitice. Ontem, juntos, contabilizamos 23 pessoas vestidas com camisas do Galo. Outras nove estavam com as blusas do Cruzeiro. Acho que os atleticanos acordam mais cedo, ou, então, são mais aparecidos mesmo. Eu também puxo papo. Nesse quesito, meu filho fica um pouco envergonhado, acha um pouco demais. Na última quinta-feira, não foi diferente. Acabei conhecendo o Arthur. Não parava de olhar a foto estampada no Super com os dizeres: “Freguês é uma ova”. Sentia-se vingado. Ele assistiu ao jogo com amigos em um bar e chegou a pensar que teria um infarto. Dor no peito, mãos suando: “Ser atleticano é ir do inferno ao céu em minutos, apaixonante, não tenho palavras”, comentou antes de seguir para a firma. O seu José, porteiro do prédio por onde passei ontem, vestia a camisa azul. Mesmo animado com a dupla consagração, o cruzeirense insistia na superioridade do Cruzeiro. Ontem, ele resolveu que não iria implicar com os rivais: “Deixa pra começar as provocações na segunda-feira, mais perto do jogo”. É isso aí, seu José! Até lá, trégua para comemorar. E, quando a quarta-feira chegar, que vença o melhor. Me desculpem os azuis, mas desejo que o Galo opere novos milagres.

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