Vai com medo mesmo

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Fui uma criança bem medrosa, nem disfarçava. A falta de autonomia me incomodava, é certo. Não escolher o que vai comer no almoço, ter que dormir quando mandam, e não quando o sono se impõe, fazer par na quadrilha com quem é do mesmo tamanho em vez de ser com o gatinho 7 cm maior... Tanto que a minha Susi sempre era uma moça solteira, dona do próprio nariz, que tinha saído de casa aos 18 anos para viajar pelo mundo. Tinha convicção de que bom mesmo era ser adulto. Principalmente porque tinha esperança de que os medos iriam se desidratar com os aniversários. A coragem que me faltava brotava borbulhante na minha irmã quase gêmea. Fernanda, dez meses mais nova, só se sentia realmente realizada no último galho do pé de ameixa, no muro transformado em corda bamba, na bicicleta sem freio descendo desenfreada pela José Cândido da Silveira. Seu atrevimento tinha direito a folga apenas quando era substituído pelas brincadeiras de boneca, que, diferente da minha, sempre era uma dona de casa rodeada de filhos. O que não deixava de ser um exercício de bravura. Na minha coleção de medos, estavam os de todo mundo que ainda não tinha chegado à adolescência e mais os que eu alcançava com meu interesse pela maioridade. Tinha pavor de cachorro, a ponto de andar quarteirões a mais para fugir de um vira-lata inofensivo que resolvesse aparecer no curto caminho entre a escola de balé e o apartamento térreo. Tinha pânico de ladrão, mesmo sem ter notícia de assalto na bucólica Cidade Nova da época. A volta de Conselheiro Lafaiete nos fins de semana com neblina era sempre alimentada por um certo temor quanto à possibilidade de que meus pais poderiam simplesmente deixar de existir, mas nada comparado com o que eu sentia quando pensava que eles poderiam deixar de existir como casal. E ainda tinha a mulher de branco que passou no “Fantástico” (como meu pai deixava eu assistir àquilo?!), que foi buscar ajuda depois de um acidente na estrada, e, quando os caras chegaram ao carro capotado, encontraram o filho vivo nas ferragens, ao lado do corpo da mãe, a mesma que tinha aparecido no acostamento desesperada. Para além dos temores infantis, tinha ainda os medos que mal podia entender. Minha lista incluía o Delfim e o FMI, os comunistas e os soldados do Figueiredo, a inflação e a bomba atômica (fazia cálculos de quantos anos teria em 2000 pra ver se daria tempo de ter vivido o suficiente até o fim do mundo). Acompanhava os esforços para a cura do câncer com o mesmo interesse que dedicava aos episódios de “A Mulher Biônica” ou “Casal 20” (sou velhinha, gente!). Mas, aí, o bolo foi ganhando mais velas, e os medos não foram minguando como eu esperava, só mudando de status e nomenclatura. Não me preocupo mais se um ladrão vai invadir a minha casa, mas perco o sono se meu filho demora demais para voltar de um show. Cachorros não me fazem atravessar a rua, mas o pensamento tacanho que resolveu se exibir nos últimos meses me faz olhar pro futuro com um tanto de desassossego. E tem um monte de outros temores menos dignos que não vou listar aqui para não me expor ainda mais. Quem chegou até esta linha já deve ter trocado minha foto por um saco de batatas. Seria justo se eu fosse só meus medos ou se eles me ocupassem o tempo todo. Nunca é assim, nem pra mim, nem pra ninguém. Aliás, se não for paralisante, o medo pode ser um bom conselheiro, preservar nosso instinto de sobrevivência e ainda ser provocador. Tem um tempinho que desisti de deixar de ser medrosa. Era uma luta inglória. Mudei o foco. Agora, se estou com medo, vou com medo mesmo.

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