Árabe em Diamantina e um até logo ao leitor

iG Minas Gerais |

acir galvao
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O Al Árabe, em Diamantina, continua sendo um dos melhores estabelecimentos de culinária árabe de Minas Gerais. À sua altura em Belo Horizonte, somente a Casa de Abraão, para se ter uma ideia. O bistrô, comandado diretamente pelo proprietário Ahmad, com a ajuda de uma garçonete simpática e experiente, funciona em instalações pequenas. Melhor reservar se você estiver na cidade em ocasião festiva, como os fins de semana em que acontece a bela Vesperata. Aconchegante, intimista, o restaurante tem preços altos na comparação com a média do interior mineiro. Ainda assim, eles são menores que os da capital ou de qualquer metrópole, aqui e alhures, justificando-se plenamente pela singularidade da proposta e a qualidade na execução, bem como elegância despojada no serviço. É de se destacar o cuidado no preparo de itens como a coalhada seca e o babaganuche, fresquíssimos, com defumação e sabor suaves. Chama atenção a maestria na arte de enrolar o quibe, a fineza de sua massa, certamente passada e repassada sabe-se lá quantas vezes no moedor, manualmente, como manda a tradição. O homus talvez possa ser melhor temperado, mas nada que cebola, limão, azeite e sal à mesa não deem jeito. A falta de hortelã na região precisa ser driblada pelo proprietário. Ao meu ver é um ingrediente indispensável na cozinha árabe. Outro ponto alto é a inventividade manifesta em criações como a esfiha aberta de ora-pro-nobis, ou o recheio de abobrinha e coalhada para quem prefira um quibe vegetariano. Ou ainda o emprego da folha de mostarda no charuto, a delicadeza, maciez e perfeita condimentação da folha de uva, também usada na confecção dos charutos. E se você preferir, há ainda os mais comuns, com folha de repolho. Ahmad, fotógrafo, virou cozinheiro dos bons há menos de uma década e preparou bem sua ajudante. No almoço do dia seguinte, a sugestão do chef foi o cordeiro à cavalhada, um guisado com arroz de aletria originalíssimo na condimentação, sem perder o espírito da culinária árabe. Isso também se aplica ao doce de figos secos e tâmaras, a meio caminho entre o caramelo e o cristalizado. Não vejo a hora de voltar à casa para conferir o carneiro assado inteiro e recheado, que Ahmad serve um sábado por mês. Mudando de assunto, você se lembra dos artigos que escrevi sobre os programas televisivos de gastronomia, há cerca de um ano? Na época, detonei o espírito competitivo da TV norte-americana, capaz de transformar a cozinha, território de prazer e congraçamento, em praça de guerra. E elogiei o estilo brasileiro, livre, leve, solto, cheio de charme. E que continua assim, com a Bela, simpática filhota do Gilberto Gil, a Rita Lobo, a Carolina Ferraz, o Rodrigo Hilbert e muitos outros. Não existia ainda o “Masterchef BR”, uma infeliz ideia da Bandeirantes, que importa dos States o modelo, sai do padrão brasileiro e ingressa no de Ana Paula Padrão. A jornalista incorpora bem o papel de dominatrix, e é provável que lhe agrade brandir o chicotinho e pedir alegria aos cozinheiros enquanto atormenta a moçada. Deve gostar mais de dinheiro do que de comida, a moça. Consta que tenha saído da Globo em busca de uma vida menos estressante; agora prefere estressar os outros. Se você aprecia ringue e músicas de filme de suspense antes das travessas chegarem à sua mesa, ótimo proveito! Despedida. Querido leitor, a coluna está completando a maioridade. Desde a fundação do jornal O TEMPO estivemos juntos, semanalmente. De minha parte, foi enorme o prazer de imaginá-lo comigo, nas manhãs de sexta, abrindo o jornal na mesa do café para garimpar informações e opiniões que o estimulassem a sair com sua família, seus amigos ou solitariamente, em busca de comida gostosa e programa divertido. É hora de trilhar outros caminhos. Deixo as atividades de colaborador para assumir novo projeto. Organizarei brevemente um blog pessoal, de maneira que esta despedida é somente um até logo. O novo espaço será dedicado à gastronomia, numa perspectiva definitivamente integrada com a política e a economia, de modo a questionar o tripé perverso do agronegócio, da indústria de alimentos e da indústria de remédios. A crítica gastronômica estará aliada à prestação de serviços e, acima de tudo, a marca de isenção e compromisso com o leitor será preservada como algo inerente à personalidade do blogueiro. Agradeço ao proprietário do jornal e aos colegas da redação pelo apoio durante quase duas décadas. Envio-lhes meu abraço e os votos de que O TEMPO mantenha sua trajetória para consolidar-se como o maior e melhor jornal de Minas Gerais, garantindo ao Estado a projeção nacional que merece, em vez da dimensão provinciana com que os demais órgãos de nossa imprensa sempre o apequenaram. Leo Noronha. E-mail: leonardonoronha@hotmail.com

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