Histórias de um ícone são eternizadas em livro

Obra que conta a história de Maria de Oliveira, a Lia do Vagão, que faleceu no ano passado, está sendo lançada este mês e pretende preservar a memória da importante personagem

iG Minas Gerais |

Amizade. 
A escritora Celina Coelho foi amiga de Lia do Vagão por mais de dez anos
DANIEL COELHO
Amizade. A escritora Celina Coelho foi amiga de Lia do Vagão por mais de dez anos

Espaço Sambanejo

Alegria e irreverência eram marcas dela, que em seus mais de 40 anos vivendo em Contagem, se tornou uma das personagens mais queridas da cidade. Conhecida na comunidade do Parque Recreio, região da Ressaca, pela bondade e atitude e famosa no município por ter construído sua casa em um vagão de trem, Maria Vicctório de Oliveira, a Lia do Vagão (1941 - 2013), cidadã que se tornou personalidade, agora se transforma em ícone eternizado no livro “Viagem no Vagão da Lia”, de Celina Coelho, lançado este mês.

A autora manteve uma amizade com Lia do Vagão por dez anos. As duas viviam em bairros limítrofes, mas cidades diferentes – Lia morando no Parque Recreio em Contagem e Celina no bairro Serrano, em Belo Horizonte – e se conheceram durante uma procissão de Semana Santa. “Percebi uma rua toda e depois ouvi um sino tocando. Aquilo me chamou a atenção. Foi quando notei que vinha da casa dela e resolvi ir lá para conhecê-la”, diz.

Em 2006, após ver uma caixa com fotos e reportagens sobre Lia e seu vagão, que estavam se deteriorando, Celina teve a ideia de escrever um livro. “Ela vivia carregando aquilo pra cima e pra baixo e quando chegava em casa colocava em qualquer canto do mafuá. Daí você imagina: cachorro, gato, tartaruga, mico, tudo quanto era bicho dormia ou passava por cima – porque Lia, vale lembrar, tinha em casa um minizoológico”, conta.

Ainda segundo Celina, Lia lutou para obter o vagão da extinta rede ferroviária Central do Brasil. Depois disso, ela mesma teve que providenciar o transporte e conseguir tratores para abrir uma estrada onde ele pudesse passar. “Como também era catadora, Lia decora seu vagão de uma forma única, fazendo do espaço um local especial”, afirma.

Para escrever o livro e reconstruir a história, Celina também conversou com várias pessoas que conviviam com ela. “Lia era uma pessoa muito querida na comunidade. Todos os anos realizava um natal solidário, em que organizava a distribuição centenas de cestas básicas para pessoas carentes”.

O projeto do livro foi aprovado em 2012 pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, e foi concretizado por meio do patrocínio da Vale. Como a ideia para o livro surgiu de recortes de jornais e fotografias, a obra também possui uma série de imagens da vida de Lia, além de acompanhar um DVD com cenas da personagem.

Lia do Vagão faleceu em 31 de dezembro de 2013 e apesar de não ter podido estar presente no lançamento da obra sobre sua vida, que esperava tanto, ela conseguiu ver o projeto concluído e adorava falar dele. “Ela divulgou o livro por onde andou. Até no hospital, antes de falecer, ela falava com as pessoas ‘quero você no meu lançamento’”, conta a escritora Celina Coelho.

Destino do vagão é incerto

De acordo com Tiago Alves, coordeandor de Políticas de Memória e Patrimônio da Fundação Cultural de Contagem (Fundac), em março deste ano foi realizada uma visita com o objetivo de avaliar a possibilidade de inventário e tombamento da residência de Lia do Vagão.

A visita foi acompanhada por Lucimar Oliveira, irmã da Lia do Vagão, que informou que após o falecimento, a família está iniciando o processo de inventário e que os familiares não são a favor do tombamento do vagão. A proposta da prefeitura é que sejam realizadas ações de preservação da memória, como, a realização de exposição com alguns objetos de Lia do Vagão.

Foi constatada a impossibilidade de remoção do vagão do local, pois a proprietária concretou uma lage sobre o teto, ancorando-o ao terreno. A Fundac afirmou que posteriormente deve realizar o inventário da edificação, vagão e objetos, que já estava previsto no Plano de Inventário do Patrimônio Cultural de Contagem, enviado e aprovado pelo Instituo Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha).

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