IBGE afirma que não revisará números sobre miséria

Ministros Tereza Campello (Desenvolvimento Social) e Aloizio Mercadante (Casa Civil) afirmaram, entre quarta (5) e quinta (6), que desconfiam dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, e que o governo pediu ao IBGE para que eles fossem analisados

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou nesta quinta (6) que, a despeito do pedido do governo, não irá revisar os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) que mostraram o aumento da miséria em 2013.

Os ministros Tereza Campello (Desenvolvimento Social) e Aloizio Mercadante (Casa Civil) afirmaram, entre quarta (5) e quinta (6), que desconfiam dos dados da Pnad, e que o governo pediu ao IBGE para que eles fossem analisados.

Conforme cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Pnad mostrou que, pela primeira vez desde 2003, a miséria deixou de cair --passou de 10,08 milhões, em 2012, para 10,45 milhões. Esses dados foram represados durante as eleições.

No entanto, dizem os ministros, essa nova tendência pode ser ilusória, fruto de dados incorretos. Segundo eles, há na Pnad uma quantidade anormal de pessoas que dizem ter renda zero mas cujo acesso a bens ou nível escolar sugerem que elas não são miseráveis --seriam "falsos renda zero".

"Quando cruza[-se] essa informação com outras informações, por exemplo, 5% dos que declararam que não tinham renda têm curso superior. Quando você olha quem tem renda baixa, nunca tem esse índice. 58% têm acesso a saneamento básico, 32% têm maquina de lavar roupa. Então, os indicadores de patrimônio não batem. O que pode ter acontecido é que são pessoas que não declararam a renda e não necessariamente que têm renda zero", disse Mercadante.

"Nós queremos que o IBGE analise com mais profundidade a mostra. Porque todos os outros índices mostram que a pobreza caiu e esse indicador de renda zero pode ter algum problema metodológico. [...] Estamos fazendo essa advertência."

No entanto, questionado pela reportagem, o IBGE disse que recebeu o pedido do governo, mas já o descartou. "Por [a Pnad] ser amostral, o total de indivíduos sem declaração de rendimentos tem flutuação anual diferenciada. Além disso, uma parcela também anualmente distinta dos informantes se recusa a prestar informação sobre a renda. Os métodos para os cálculos com a variável renda e as demais variáveis devem, portanto, considerar as possíveis flutuações existentes nas variáveis utilizadas. A Pnad 2013 seguiu a sua metodologia de coleta das informações como planejada e seus resultados não serão revisados pelo IBGE", informou o órgão em nota.

A Pnad é autodeclaratória, ou seja, a pessoa diz quanto ganha, e esse valor não é checado. Normalmente, a declaração é próxima do valor real. Mas, conforme pesquisadores, a autodeclaração de renda pode ser especialmente pouco confiável nos extremos --entre os que ganham muito ou muito pouco. Assim, "falsos renda zero" ocorrem em todas as Pnads.

Em 2013, houve, de fato, um aumento de 23,3% no número geral de pessoas que declararam renda zero nessa pesquisa --de 1,9 milhões em 2012 para 2,4 milhões.

Mas variações desse dado não são incomuns. Entre 2006 e 2007, por exemplo, houve um aumento de 79,4%. Entre aqueles anos, a miséria continuou caindo.

Margem de erro

O governo, por meio do Ministério do Desenvolvimento Social e também Mercadante, afirma que a variação de pobres entre 2012 e 2013 foi apenas uma flutuação, e que teria ocorrido dentro da margem de erro da Pnad.

Apesar de a variação ser pequena o suficiente para pesquisadores preferirem falar em estagnação, e não crescimento, a Pnad não tem uma margem de erro geral. O IBGE também não estabeleceu margens de erro específicas para analisar a declaração de renda. Questionado pela reportagem, o MDS não explicou a que margem de erro se refere.

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