Não existe lugar como um novo lar

Longa é melodrama galáctico que se perde em terceiro ato mirabolante

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Família. Ligação entre protagonista Cooper e a filha Murph é o condutor emocional e principal elemento do longa
Melinda Sue Gordon
Família. Ligação entre protagonista Cooper e a filha Murph é o condutor emocional e principal elemento do longa

Uma das grandes pseudo-polêmicas do mundo do cinema no ano passado questionava se “Gravidade” poderia ou não ser considerado uma ficção científica. O argumento era que, por trás da aparente simplicidade do cataclisma de eventos que compunha a narrativa, comparada por muitos a um passeio de montanha-russa, tudo que acontecia ali era cientificamente possível – ainda que não provável.

“Interestelar”, que estreia hoje nos cinemas, faz o exato oposto. O filme gasta longos minutos (e diálogos) explicando a complexa física quântica e a teoria da relatividade que sustentam as viagens no espaço-tempo de seus personagens. Para, no fim, mandar tudo às favas e resolver o insolucionável com a varinha de condão da magia do cinema – deixando metade dos espectadores com uma cara de tacho, e a outra com lágrimas nos olhos.

Em qual dos dois lados você vai estar diz muito da sua personalidade – e um pouco da imperfeição do longa dirigido por Christopher Nolan (“A Origem”). A produção funciona como a jornada emocional de um pai, Cooper (Matthew McConaughey), obrigado a deixar os dois filhos para trás e pilotar a missão em busca de um planeta que permita a sobrevivência da humanidade, comprometida pela poluição e falta de alimentos. Mas como ficção científica, ele está mais preocupado em explicar do que provocar, em encontrar respostas fáceis do que propor questões difíceis.

Isso porque “Interestelar” é um melodrama galáctico. Christopher Nolan é muito comparado a Stanley Kubrick, mas o que ele faz aqui é a fábula da reconstituição familiar típica de Steven Spielberg – que, não por acaso, era o diretor original do projeto. E se funciona, é graças à solidez do eixo emocional central do roteiro: a ligação entre Cooper e sua filha Murph (Jessica Chastain na fase adulta).

As cenas entre os dois são, com o perdão do trocadilho, a força gravitacional do longa. McConaughey alia o brilho do astro – numa época em que astros não existem mais – à entrega emocional de um grande ator que não esconde a fragilidade do pai que, para garantir o futuro e a segurança dos filhos, precisa abandoná-los. E Chastain consegue dar agência e personalidade ao arquétipo mais irritante do cinema – a garotinha que chora porque “meu paizinho me deixou para ir salvar o mundo”.

Fora desse centro, o roteiro alterna entre sequências empolgantes, mas não muito necessárias (o primeiro planeta visitado); reviravoltas melodramáticas (o surgimento de um vilão que, apesar de bizarramente inesperado, reforça o tema do filme de que só as ligações emocionais humanas são capazes de nos salvar); e (muitos) diálogos expositivos que tentam explicar por que Murph tem 10 anos quando o pai vai embora, ela cresce e vira Chastain e ele continua todo McConaughey.

Tecnicamente, “Interestelar” é correto, mas mais uma vez sofre por estrear na sombra de “Gravidade”. Os efeitos especiais e a fotografia do longa de Alfonso Cuarón impressionavam exatamente porque seu realismo escondia a complexidade envolvida. Já o filme de Nolan parece tentar e tentar na imaginação das extrapolações científicas e na edição de som abafada que o cineasta gosta de usar para potencializar a ação, mas não oferece nada de novo ao gênero.

Isso fica claro no momento visual mais ousado do filme, quando Nolan tenta associar a viagem psicodélica de “2001: Uma Odisseia no Espaço” à magia do melodrama spielbergiano. Na sequência, que abre o terceiro ato, o diretor joga todas as suas referências no liquidificador para tentar fazer algo seu – e é, com certeza, o momento mais divisivo da produção. O didatismo exagerado e as explicações desnecessárias e mirabolantes são salvas por McConaughey, que segura no rosto uma cena que joga para o alto toda a fidelidade científica que o longa propôs até ali, e pela bela trilha de Hans Zimmer, que conjuga melhor que o próprio filme emoção e apocalipse. Comprar ou não o que acontece ali é o que deve definir sua opinião final sobre “Interestelar”.

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