‘Vamos melhorar interlocução com segmentos mais pobres’

Marcus Pestana - Presidente do PSDB em Minas Gerais e deputado federal reeleito

iG Minas Gerais |

“Em todos os lugares onde a sociedade é maior que o Estado, o Aécio ganhou”
DENILTON DIAS / O TEMPO
“Em todos os lugares onde a sociedade é maior que o Estado, o Aécio ganhou”

Ele admite que o PSDB precisa falar mais com a sociedade, aposta que Dilma terá “bombas de efeito retardado” a enfrentar e reconhece que erro de estratégia após escolha de Pimenta da Veiga contribuiu para a derrota tucana no Estado

Qual o motivo de mais de 50% do povo mineiro ter optado por votar contra o PSDB? Em primeiro lugar, o Aécio fez uma campanha fantástica, uma linda campanha, sem responder na mesma moeda à tentativa do PT de levar a campanha para perto do esgoto. Foi a campanha mais baixa da história da redemocratização. Aécio sai muito maior do que entrou nesta campanha. E para nós, do PSDB, foi revitalizante. Aécio hoje encarna, personifica o desejo de mudança de 48%, quase metade da população. O partido se revigorou, se reinventou. Primeiro porque a autoestima do tucano está restabelecida. Por muito tempo nós ficamos encolhidos, na defensiva com a máquina de comunicação, com a ofensiva de Lula e do PT. As maiores manifestações da campanha foram exatamente na campanha de Aécio. Vinte, trinta, quarenta mil pessoas em Copacabana, no Rio; no Pelourinho em Salvador; em São Paulo, na praça da Estação em BeloHorizonte; e por todo o Brasil. Então, nós saímos revigorados, e Aécio sai como um personagem central, um protagonista do futuro próximo.

E em Minas?

Aqui, em Minas, nós cometemos alguns erros. Eu sou da turma do Mário Covas. E sempre perguntavam a ele por que eventualmente tinha perdido uma eleição, e ele respondia de forma simplista: porque o outro teve mais votos do que eu, e depois completava: o povo nunca erra. Pode faltar um nível adequado de informação, mas o povo tem sabedoria, bom senso e intuição. Ele sabe defender seus interesses, é claro que as informações chegam de formas distorcidas, é um processo que não é um concurso público, não é uma prova de títulos, é uma dinâmica política de ataque e defesa.É preciso fazer uma autocrítica, não no sentido de achar culpados, mas do aprendizado para o futuro, houve um problema central. Nós escolhemos um dos nossos melhores quadros, o ex-ministro Pimenta da Veiga. Um quadro experiente, com inteligência, com muita qualidade para representar o partido e ser o nosso candidato a governador, mas, por estar afastado por um tempo da política mineira e da política em geral, era preciso colar a imagem de Pimenta, na decolagem, ao legado de Aécio e de Anastasia. Só que a opção de marketing e de comunicação da campanha deixou o Pimenta flutuar nos 20 primeiros dias de televisão, sem esse vínculo e, paralelamente, o PT e Fernando Pimentel desconstruíram e fizeram uma operação agressiva de desconstrução do legado de Aécio.

Em sua avaliação, a escolha do candidato não foi por si só um erro? Foi realmente essa questão do marketing? Nós tínhamos três nomes, o meu nome, o do atual governador, Alberto Pinto Coelho, e o do presidente da Assembleia, Dinis Pinheiro. O nosso grupo sempre teve sucesso por duas precondições: a liderança inquestionável de Aécio em Minas e a unidade do grupo. Esse segundo elemento se colocou sob risco, houve um impasse. Cada um arregimentou suas forças, prefeitos, deputados, vereadores, forças sociais que se alinharam a cada uma das pré-candidaturas, mas chegou um momento que houve um impasse, não caminhava para lado nenhum, e havia uma grave possibilidade de uma fratura no grupo. E, conversando com alguns atores e coordenando esses processo, tanto o governador Anastasia quanto o senador Aécio Neves adotaram uma saída clássica de manual: quando dá um impasse você traz um teso para que não tenham vencidos e nem vencedores.

Pode se dizer que o PSDB não está sabendo se comunicar com o povo? Talvez não esteja se comunicando apenas com uma parcela dessa sociedade, a das classes mais altas?

É uma lenda urbana essa coisa de que o PSDB representa a elite. Nós tivemos 48% dos votos, governamos 12 anos em Minas Gerais, governamos 20 anos em São Paulo. Então, nós temos uma expressão social, já ocupamos a Presidência da República por oito anos e temos orgulho do nosso passado, e também temos uma força social inegável.

Não é se representa ou não, mas é se tem mais facilidade em tratar com a classe alta...

São partidos de naturezas diferentes. O PT veio do movimento sindical, de partes das bases da Igreja, e tem uma série de organizações da sociedade, que infelizmente o governo Lula estatizou. A democracia pressupõe o fortalecimento da sociedade, e, não, do Estado. E o que houve, em todos esses organismos MST, UNE, CUT? Eles foram trazidos para o âmbito do Estado, com benesses, com convênios, com muito dinheiro, e se criaram essas correias de transmissão. Em todos os lugares onde a sociedade é maior que o Estado, Aécio ganhou. Em todos os lugares em que o Estado é maior que a sociedade, Dilma ganhou.

E como superar isso?

Para recuperar uma velha metodologia de que eu já fui adepto, tem duas coisas diferentes: as condições objetivas e as condições subjetivas. Do ponto de vista objetivo, o que se avizinha é uma grave crise econômica. Na semana seguinte (ao segundo turno), o Banco Central aumentou os juros, e foi revelado ao país o pior déficit fiscal da história, desde que o indicador existe. Quer dizer, nós tivemos déficit primário, sendo que nós deveríamos ter superávit para pagar a parcela da dívida. Então, duas notícias ruins. O setor elétrico acumula uma dívida de R$ 100 bilhões, que o consumidor ou o contribuinte vão pagar. Então, existe uma série de bombas de efeito retardado, do ponto de vista objetivo, que a presidente Dilma vai enfrentar.

Mesmo com isso que o senhor diz, ela conseguiu ser reeleita...

Mas isso é porque eles conseguiram impregnar os setores mais pobres da população, e aí vem a questão subjetiva.

Por que não imaginar que isso vá acontecer de novo?

Porque a política não é feita unilateralmente, nós vamos nos adequar a essa realidade, nós vamos melhorar essa interlocução com os segmentos mais pobres, mas que vão ser afetados pela crise objetiva neste novo governo.

Mas o PSDB dependeria muito mais de um fracasso do PT...

Mas são duas coisas, uma coisa é evolução da realidade objetiva, e do ponto de vista subjetivo tem uma questão complexa que é o escândalo da Petrobras, que é dez vezes maior que o mensalão. (A Petrobras) vai pegar muita gente famosa. Então, na hora em que a delação premiada vier à tona, que os inquéritos caminharem, na hora em que o sistema Judiciário – Polícia Federal, Ministério Público e o Poder Judiciário – agir, certamente boa parte dos estertores da República, da base do governo Dilma, será afetada. A população quer ver às claras isso, e nós vamos cobrar, dia após dia.

E qual vai ser a postura de Aécio? Vai ser de diálogo ou mais de embate duro com o governo? É hora de dialogar... Quem não tem nenhum talento e vocação para o diálogo é a presidente Dilma. Isso não sou eu que falo, são os deputados e senadores da base do governo. Ela, diferente do presidente Lula, tem uma personalidade autoritária. O papel do Aécio é muito diferenciado agora. A sociedade funciona com signos, símbolos, e ele encarna a opinião de 48% que querem mudanças. Ele não pode banalizar a palavra dele. A minha opinião, que já pude externar a ele, é que não pode se perder e desvalorizar a palavra dele num embate do dia a dia. Ele tem que falar com a sociedade. O Aécio vai ter que estar menos na camisa de força da atuação parlamentar. Ele está desonerado disso porque nós estamos chegando, nós já temos senadores, pra citar só dois: Alvaro Dias e Aloysio Nunes são excepcionais. E estamos chegando com ninguém mais, ninguém menos que Anastasia, Tasso Jereissati e José Serra.

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