Tudo pelo teletransporte

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Adoro viajar, mas odeio o trajeto. Não aquela viagem de carro que se faz para uma cidade próxima. Dessa, eu gosto, curto cada momento: a escolha das músicas, a hora do lanchinho, a parada para fazer xixi. Me refiro a viagens longas, de avião. Veja, para destinos internacionais, recomenda-se chegar duas horas antes de o avião sair (no Brasil, três, “por se acaso” – vai que a Polícia Federal resolve entrar em greve). Se levarmos em conta que os aeroportos ficam longe de onde moramos, aí já vai mais uma. E, depois de tudo, para piorar, vem a viagem propriamente dita: 8, 9, 10 ou... 22 horas (no caso da Malásia, onde estive em 2009). Sofrível, principalmente para alguém que, como eu, não consegue dormir em avião. Quando tenho uma TV só para mim, ótimo. Posso ver todos os filmes disponíveis. Mas há aquelas companhias aéreas que passam um filme para todo mundo e, aí, quando acaba, tédio. No caso da viagem à Malásia, conversei com uma das minhas companheiras de viagem até ela resolver dormir. Depois, vi um monte de filmes, li, andei de lá pra cá no avião, quando todos dormiam (até o bebê chinês, que havia chorado umas cinco horas seguidas), e ainda assim o tempo não passava. Já repararam como a passagem do tempo é relativa? Uma hora, quando se está fechando a edição de um jornal, parece cinco minutos. Uma hora caminhando em cima de uma esteira de academia se transforma em sete. Na viagem de volta da Malásia, travei uma conversa com um comissário malaio, que ia descer na primeira parada do avião, dez horas depois. Contamos nossa vida um para o outro. Ele fez a gentileza de pedir para que uma de suas colegas me mostrasse o avião, e aí as horas passaram. Mas na outra metade da viagem, cruz credo. Tédio, tédio, tédio. Por isso, sonho em ser uma personagem de “Star Trek” e me teletransportar para onde eu quero, como num piscar de olhos. Imagina! Resolvo ir para Paris. Arrumo as malas e, plim, estou na Cidade Luz em um segundo, descansada, com a pele reluzente, sem olheiras e uma disposição maravilhosa para bater perna. Trinta e seis horas para chegar ao Japão? Nada. Plim! E Tóquio está aos nossos pés. Realmente acreditei que, quando o futuro chegasse, iria de um lugar para outro em teletransporte. Você pode até dizer que sou maluca, mas fantasia é fantasia. Nunca pensei que teríamos telefones móveis, que ainda por cima tirassem fotos. Falar com uma pessoa do outro lado do mundo pagando quase nada, como é o Skype, jamais passou pela minha cabeça que pudesse acontecer. Shows com gente que já morreu, por meio de hologramas, ia duvidar se me contassem que um dia seria possível. Agora, teletransporte sempre fez parte da minha fantasia. E, se querem saber, trocava todas essas tecnologias maravilhosas por ele. Ficaria até sem celular, sem internet, sem Facebook... Fico imaginando que se os investimentos e os esforços tivessem sido usados para a criação do teletransporte poderíamos estar viajando mais em menos tempo. Parece coisa de maluca, mas não é. Tem gente muito mais maluca do que eu e que, em vez de ficar aqui escrevendo bobagens, está lá nos laboratórios fazendo experiências para que um dia isso se torne realidade. Eugene Polzik, por exemplo, é um deles. O cientista dinamarquês e sua equipe conseguiram teletransportar informações armazenadas em um raio laser, em uma nuvem de átomos, em 2006. Segundo Polzik, foi a primeira vez que se envolveu o teletransporte entre luz e matéria, dois objetos distintos. O grande dilema da ciência, no caso, é que já se sabe que para se teletransportar qualquer coisa é preciso destruir o original e criar uma réplica. No caso de informações, ok, mas como fazer com as pessoas? Não sei, nem quero saber, mas já inventaram tanta coisa... Custa dar um jeito de inventar o teletransporte? Crônica originalmente publicada no dia 7.11.2012. A colunista está de férias.

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