Flerte com outras áreas movimenta retorno aos palcos

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Cena do espetáculo “Moi Lui”, com direção de Isabel Cavalcanti
Dalton Valerio divulgacao
Cena do espetáculo “Moi Lui”, com direção de Isabel Cavalcanti

Ana Kfouri estava há 16 anos longe dos palcos e seguia firme sua carreira de diretora quando recebeu um chamado, que fez com que ela voltasse de vez a “encarnar” a personagem “atriz”. A clarividência era um livro do verborrágico franco-suíço Valère Novarina, “Discurso aos Animais”, que lhe rendeu dois monólogos “Animal do Tempo” e “A Inquietude”.

“Sou muito ligada à filosofia, à literatura, à prosa narrativa. Por isso, me identifiquei tanto com o Novarina”, pontua a artista. Depois deles, Ana Kfouri encenou os dois textos de Samuel Beckett que traz a Belo Horizonte (“Primeiro Amor” e “Moi Lui”) e segue firme nos seus processos criativos como intérprete. Ela prepara agora uma instalação sonora “Dar a Ver”, baseada em um texto do francês Antonin Artaud (“Para Acabar com o Julgamento de Deus”).

“Creio que seja um trabalho consequente”, afirma ela. “De Novarina veio esse jorro da palavra, que me levou até a aridez de Beckett, depois era natural que chegássemos ao Artaud, porque Artaud é intensidade pura”, explica ela.

O público poderá conhecer o texto de Artaud que inspira o próximo trabalho da artista, previsto para 2015, na leitura dramática que acontece no domingo. O texto do encenador e pensador francês é, na verdade, uma peça radiofônica, que se aproxima da pesquisa com a palavra de Kfouri. O novo trabalho também traz um estreitamento de sua pesquisa com outras áreas como a performance e as artes visuais.

A explicação para essa aproximação pode estar no fato da artista fazer atualmente doutorado em artes visuais, na Uni Rio. “Quis me enveredar em uma área desconhecida. Como hoje em dia, tudo se entrecruza, quis também ampliar o olhar e pensar em outros lugares. As artes visuais me chamam muito a atenção, porque possibilitam uma síntese muito interessante. No teatro, a gente pode e deve aprender com isso”, diz.

Oficina. A vinda a Belo Horizonte pelo projeto Off Cena é uma oportunidade para a artista demonstrar suas várias facetas. “O projeto me possibilita demonstrar que trabalho como uma forma de pensamento. Dessa forma, o público poderá me ver em cena, debater sobre os espetáculos, conhecer minha pesquisa e apreciar um processo que ainda não está pronto”, comenta.

Embora traga a Belo Horizonte dois espetáculos em que está sozinha em cena, a artista sempre se dedicou a criações coletivas. Ela fundou a Companhia Teatral do Movimento, em 1991 e o Grupo Alice 118, em 1998. Uma outra faceta que Kfouri desenvolveu ao longo de sua carreira foi a de professora de teatro. Durante sua passagem por Belo Horizonte ela oferece a oficina “Deixa o Texto Falar”, de amanhã a domingo, que dialoga diretamente com a pesquisa em torno da palavra que ela desenvolve há muitos anos.

A oficina é principalmente para iniciados em teatro, mas não se restringe apenas a esse público. “É interessante que haja inscritos de outras áreas, gente que tenha interesse pela palavra, mas que não seja necessariamente do teatro. Assim, conseguiremos estabelecer um diálogo interessante entre linguagens”, comenta a atriz. Dentre os autores que deverão servir de base para o trabalho na oficina estão Hilda Hilst, Valère Novarina, o próprio Samuel Beckett e o poeta visual maranhense Josias Benedito. “Escolhi autores que não têm necessariamente relação entre si, mas que trazem em suas obras essa potencialidade que a palavra pode ter. A palavra como força poética”, pondera Kfouri.

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