Poesia e potência da palavra

Ana Kfouri traz a Belo Horizonte sua pesquisa em torno da palavra com dois espetáculos, leitura dramática e oficina

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Beckett. Aridez e tempo dilatado do dramaturgo irlandês inspiram monólogos que atriz apresenta no fim de semana
Dalton Valerio divulgacao
Beckett. Aridez e tempo dilatado do dramaturgo irlandês inspiram monólogos que atriz apresenta no fim de semana

Na sociedade ocidental, a racionalidade costuma ser traduzida em palavras. Assim surgem linhas de pensamento e campos de estudo como a filosofia, as ciências sociais e a antropologia, dentre outros. Quando se pensa no teatro, a palavra é centro de várias encenações, e a ela é atribuída a capacidade (e a responsabilidade) de criar sentido. Na contramão desse pensamento, a atriz, diretora e professora carioca Ana Kfouri se dedica a outras possibilidades. Sua pesquisa em torno da palavra e da obra de Samuel Beckett pode ser vista no projeto Off Cena, a partir de amanhã, no Sesc Palladium.

“Os atores pensam que precisam dominar a palavra e dar a ela um sentido específico, como se ela fosse um fim. Minha pesquisa pensa a palavra como fio condutor, como potência expressiva, como campo de força”, comenta Kfouri. Com uma relação próxima entre a dança e o teatro, a artista se notabilizou por trabalhos com Daniela e Gerald Thomas, além de Paulo José e Roberto Lage. E passagens pela TV.

A artista traz a Belo Horizonte dois monólogos inspirados no dramaturgo irlandês Samuel Beckett, fartamente montado no Brasil e ao redor do mundo, reconhecido pelo texto árido e o tempo dilatado de suas tramas, com personagens icônicos como Estragon e Vladimir, de “Esperando Godot”.

Na sexta-feira, ela apresenta “Moi Lu”; no sábado, “Primeiro Amor”. Para domingo, ela promete ainda uma leitura dramática de “Para Acabar com o Julgamento de Deus”, de Antonin Artaud, texto que deverá inspirar “Dar a Ver”, trabalho que oscila entre performance e instalação sonora, previsto para 2015. “Fazer Beckett é uma experiência. Uma experiência da linguagem e da contenção. Seus personagens são repletos de intensidade, poesia, ironia, aridez, simplicidade. Fazer Beckett é mergulhar também na aventura das palavras”, completa Kfouri.

“Primeiro Amor”, dirigido por Antonio Guedes, mostra um homem que, expulso de casa após a morte de seu pai, passa a vagar por cemitérios à espera de seu fim, até conhecer uma prostituta e, ao sofrer com a ausência dela, perceber que a ama. Projeções criadas pela artista plástica Helena Trindade são utilizadas como luz e dão movimento ao espaço cênico. “Nesse espetáculo, nossa proposta foi instalar um ambiente muito árido e conciso, de modo que meu embate com o público torna-se muito intenso, já que fico afunilada em um espaço muito pequeno”, comenta a atriz.

Já “Moi Lui”, com direção de Isabel Cavalcanti, mostra seres abandonados e sem garantia de nada. A peça é livremente inspirada no romance “Molloy”, de Beckett, e fala sobre a nossa potência diante da nossa natural impotência. É sobre o abandono do ser humano e também sobre a poesia da cena teatral.

Samuel Beckett não é a única fonte de inspiração do espetáculo; memórias da infância e sonhos recorrentes da diretora Isabel Cavalcanti também compõem a encenação. Em cena, dois personagens: o narrador A. e o personagem Molloy. Ambos tentam registrar, de maneira própria, a história de Molloy em busca de sua mãe.

“Criamos um atmosfera mais contemplativa, um tempo mais largo. O corpo do personagem é mais cansado, esgotado, enquanto em ‘Primeiro Amor’ o físico é mais tenso”, compara a atriz. “A minha ideia foi convidar dois diretores para conseguir criar dois espetáculos completamente distintos entre si, com a mesma atriz em cena. Até para mostrar que não há uma fórmula para se encenar Beckett. Para mim, é muito desafiador fazer espetáculos tão diferentes. Estou fazendo aquilo que preciso fazer, porque eu não poderia não fazê-lo”, completa a atriz.

As vanguardas teatrais, ao longo da história, tendem a estabelecer relações de amor e ódio, de afirmação e negação do texto e do papel do dramaturgo. Depois da criação do processo colaborativo, que chegou a Belo Horizonte no final da década de 90, virada para os anos 2000, a escrita para teatro se relativiza e dá ao ator autonomia para não ser um mero reprodutor de frases escritas por outrem. Texto no centro?

Hoje, há um tendência contemporânea de se voltar para o “teatro de texto”. A aparição de novos dramaturgos e ciclos que debatem, estimulam e exibem textos feitos na atualidade, como o projeto Janela de Dramaturgia, comprovam isso.

Kfouri, no entanto, acredita que essa “volta” ao texto, na verdade, se deve a uma relativização de sua importância preconizada nos dias de hoje. “Não temos uma cultura que coloca o texto como o centro da encenação, como faziam no século XX”, explica. “Hoje, o texto é mais um elemento presente nas encenações. Às vezes, mais importante, outras, nem tanto. São elementos que vão se entrecruzando. Não há mais uma hierarquia”, completa.

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