A esperança na informação

iG Minas Gerais |

Como disse Paulo Francis há uns 20 anos, o brasileiro legitima com muita facilidade qualquer coisa que sai impressa numa folha de jornal ou de revista. Está publicado, é verdade, julgamos. Durante a eleição que passou, alguns veículos tradicionais – diferentemente deste que carrega estas avaliações – abdicaram do jornalismo que se ensina na universidade para fazer campanha. Isso se deu principalmente no segundo turno, que, como é praxe, puxa todo mundo para fora do armário. Foram nítidas as tentativas de alguns jornais e revistas de tentar convencer eleitores/leitores de suas preferências editoriais, não por meio do jornalismo, mas pela invenção e pela omissão. As ossadas ainda estão caindo das rotativas, aos poucos, e talvez nossa estrábica opinião pública, ainda hoje, não consiga admitir as reiteradas sessões de tortura às ideias e às palavras. A docilidade com a qual encaramos os meios de comunicação se transfere em boa medida para a internet, essa impalpável terra de ninguém. É de pasmar. Há os provocadores e os dissimulados, claro, que jogam gasolina na centelha da desinformação de propósito e com consciência de facção. Já a massa de crédulos parece ter migrado em boa medida para diante do computador. No Facebook, uma ignorância atomizada compartilha-se, reflete-se, soma-se, multiplica-se e se massifica. A impressão é que a reverência prestada a um veículo de imprensa ganha um contorno afetivo e ainda mais desajuizado quando se lê a postagem de um “amigo”, que se sabe estar do mesmo lado, o “lado certo”. O monte de lixo que se publica e compartilha na rede social mais popular cresceu em escalas geométricas no Brasil durante o segundo turno. A maior parte ungida pelas verdades da ignorância. As campanhas eleitorais, sabendo muito bem desse processo catalisador, investiram em seus exércitos de disseminação de calúnias, ficções e sátiras. Somos tolos ao desconsiderar essa indústria. A irracionalidade, seja da euforia ou do rancor, se arrefece numa velocidade mais lenta do que deveria. O grupo derrotado nacionalmente insiste em factoides que, ao beirar o antidemocrático, freiam a resignação de seus apoiadores. Ainda assim, há esperança. Alguns dos grupos dos derrotados e dos vitoriosos prometem acompanhar com mais atenção as ações do governo reeleito. A promessa é mais forte entre os primeiros, evidentemente. Ainda que mantenham o respeito cego às publicações mais “prestigiadas” e suas verdades tão límpidas quanto a água do Arrudas, a busca permanente por informação é um bom princípio. Informar-se é formar algum senso crítico, mesmo que com viés de origem. Em quatro anos, poderemos ter uma disputa mais ponderada, pautada mais por argumentos do que por preconceitos e mentiras. Será um ganho enorme para todos, por exemplo, informarmo-nos sobre os papéis de um deputado e passarmos a considerar que a eleição parlamentar merece tanto rigor quanto a do presidente. Merece saudação o projeto de um deputado que propõe o estudo sistemático da Constituição na escola, que, hoje, forma mais vestibulandos do que cidadãos. No caso de cidadania, só a instrução formal pode fazer frente à ignorância.

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