Desfazer para reconstruir

A bailarina Zélia Monteiro apresenta sua pesquisa em encontro realizado nesta terça e estreia “Danças Passageiras” no dia 6

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obra. “Danças Passageiras’, sublinha diálogo da artista com o próprio corpo e tem traço intimista
Vitor Vieira
Obra. “Danças Passageiras’, sublinha diálogo da artista com o próprio corpo e tem traço intimista

Há quase três décadas trabalhando com a improvisação, Zélia Monteiro busca evitar repetições e vem repensando os próprios movimentos. Nasce disso a criação de “Danças Passageiras”, que a artista apresenta nesta quinta-feira, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, dentro da programação do Fórum Internacional de Dança (FID). Nesta terça, ela participa de um encontro no Centro de Arte Suspensa e Armatrux – C.A.S.A, em Nova Lima, onde detalha a sua pesquisa.

“Eu me perguntei como continuar improvisando em dança sem repetir algum tipo de estratégia. Foi fundamental nesse processo a participação de outros artistas, que me ajudaram a estabelecer uma desestabilização dos padrões de criação”, explica Zélia Monteiro, que estreou a montagem no ano passado.

Embora os bailarinos Cristian Duarte, Marta Soares e Isabeltica Lemos a tenham ajudado a conceber o espetáculo, este é apresentado como um solo. Isso, para ela, dá um contorno mais intimista ao que interpreta.

“Eu vejo esse trabalho como algo que revela algumas visões bastante íntimas. Como ele é baseado nessas minhas reflexões, os movimentos têm uma qualidade intimista. Todo o improviso é baseado na minha conversa com o meu próprio corpo e com o ambiente em que estou presente”, acrescenta ela.

Monteiro, que foi aluna de Klauss Vianna e sua assistente, percebe nessa atitude de rever a sua linguagem como algo afinado com o que o coreógrafo ensinava a cada um dos seus alunos.

“Essa ideia de se colocar em questionamento é algo bem próximo do que Klauss fazia. Eu acho que todo o procedimento que realizamos, com a colaboração dos outros artistas, vai além da visão dele, mas a sua influência sem dúvida está presente na minha trajetória atual”, afirma.

Para a bailarina, o contato com o coreógrafo mineiro foi decisivo para a sua carreira. Ela credita a ele a maneira como deixou de ser apenas intérprete para alçar também o lugar de criadora. “Acho que todo mundo que passava pelo Klauss se tornava um criador. Comigo não foi diferente. Ele modificou completamente o meu modo de perceber a dança. Com quatro anos de estudos com ele, eu passei a criar os meus próprios trabalhos, o que acontece a partir de 1988. Desde aquela época eu passei a improvisar em cena, o que eu não fazia antes”, observa a artista.

Ela recorda que, aos poucos, começou a produzir obras mais abertas, que lhe permitiam agir de outra forma em cena. “Eu passei a nunca saber ao certo o que vai acontecer quando me apresento”, completa.

Dentre outros ensinamentos lembrados por Vianna, ela cita a maneira como o artista defendeu a libertação de regras fixas.

“Ele aboliu a coreografia, a sequência. Não havia, assim, o interesse em gravar a continuidade de passos; nós não trabalhávamos com um modelo rígido. Tudo era bastante processual e você fazia aquilo que era determinado pela consciência dos seus movimentos. O interessante disso tudo é que Klauss não deixava nada pronto para você aplicar, mas um pensamento sobre a dança”, pontua Monteiro, que leva essas ideias para a vertente em que atua.

“Para o improvisador, quando tudo parece estar ordenado, fixo e fechado é que se tem a noção da necessidade de desestabilizar essas coisas para dar continuidade à criação. É um processo inverso daquele de quem cria com foco na coreografia”, conclui.

Programe-se

Zélia Monteiro apresenta sua pesquisa em dança nesta terça no Centro de Arte Suspensa e Armatrux – C.A.S.A (Rua Himalaia, 69, Vale do Sol, Nova Lima), às 20h; e estreia “Danças Passageiras”, nesta quinta-feira, no teatro do CCBB (praça da Liberdade), às 20h. Ingressos custam R$ 6 e R$ 3 (meia).

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