Paris ganha museu-ostentação

Nova obra faraônica, inaugurada na semana passada, mostra como o arquiteto Frank Gehry perdeu a mão

iG Minas Gerais |

Fachada. Museu impressiona mais por sua estrutura externa do que por suas galerias e obras
Jacques Brinon
Fachada. Museu impressiona mais por sua estrutura externa do que por suas galerias e obras

Paris, França. Mais novo museu de Paris, a Fundação Louis Vuitton, inaugurada na semana passada, é um transatlântico de vidro e alumínio encalhado no parque Bois de Boulogne.

Frank Gehry, 85, famoso pelo prédio do Guggenheim de Bilbao, construiu as galerias sob uma casca de placas de vidro que formam um labirinto na cobertura, como se levasse as vielas do bairro de Montmartre para mais perto do céu.

Esse mastodonte branco, talhado para exibir a coleção do magnata do luxo Bernard Arnault, tem 11 mil metros quadrados, custou R$ 335 milhões e virou símbolo máximo da onda de ostentação que varre o mundo da arte.

Lá dentro, telas de Gerhard Richter, uma escultura gigante de Thomas Schütte, um corredor de espelhos de Olafur Eliasson e uma penca de vídeos, entre eles uma quase propaganda institucional do museu criada por Sarah Morris, dão o tom do espaço.

No térreo, tudo se reflete em espelhos-d’água. Uma cascata embaixo do prédio dá a impressão de que a construção é uma barcaça atracando no famoso bosque parisiense.

Mas por mais gigantes e vistosas que sejam, as galerias do museu dão sensação de vazio, como se pouco houvesse para ver ali além de uma embalagem hiperbólica – Oliver Wainwright, crítico de arquitetura do jornal “The Guardian”, comparou o espaço a um frasco de perfume estilhaçado.

É uma imagem em sintonia com o momento atravessado por Gehry, que parece saber estar perdendo a mão. Irritado, ele chegou a mostrar o dedo do meio para um grupo de jornalistas que perguntou se sua arquitetura não seria um “espetáculo vazio”.

Vencedor do Pritzker em 1989, maior prêmio da arquitetura, e herói de um momento em que projetos faraônicos foram usados para revitalizar paisagens urbanas moribundas, como fez em Bilbao, na Espanha, Gehry virou refém de suas próprias estratégias.

Uma retrospectiva da obra do arquiteto canadense em cartaz até janeiro no Centre Pompidou revela como sua obra evoluiu de casas nada convencionais, que embaralhavam o vocabulário residencial com portas e janelas em lugares inusitados, para a invenção de seus megamuseus.

Gehry, que abriu seu escritório em Los Angeles nos anos 60, é viciado na complexidade das construções, que compara aos improvisos do jazz, e se firmou como um dos maiores nomes do pós-modernismo – o momento em que se perdeu a vergonha de criar geringonças vulgares.

Sua retrospectiva no Pompidou, cheia de maquetes, parece despir o arquiteto, mostrando como Gehry, em uma obra atrás da outra, não fez mais que criar esqueletos pobres para revestir com peles de vidro e metal retorcido cada vez mais estonteantes.

Os desenhos para o Guggenheim de Bilbao e de Abu Dhabi e da sala de concertos Disney, em Los Angeles, parecem todos variações sobre um mesmo tema, de salas sob uma cobertura que está menos para jazz e mais para cacofonia ensurdecedora. Em Paris, Gehry comparou o novo museu a um violino que deve ser tocado.

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