“Piqui Ruído” sobre a mesa

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Para, quem sabe, converter alguém para a boa cultura, ou pelo menos causar saudável curiosidade em uma mente alheia, e alheia, deixo um “Piqui Ruído” sobre a mesa e vou embora. A sede de um chope na entrada da noite me levou a sentar ali, e só depois de sorver goles e saciar as primeiras vontades é que escuto o ambiente e percebo o sertanejo pop dominante na caixinha de som, miúda e potente. Tento relevar e leio o “Piqui Ruído”. É um bravo fanzine que neste número fala de Guimarães Rosa, Drummond, traz poemas bem-construídos que levam longe, distante daquela música sertaneja pop, fala também dos rumos degradantes das nossas cidades progressistas, das nossas decepções políticas, das visões de óvnis, de um homem puro, motorista que, diante da cancela de entrada em um shopping, tocou a buzina para abrirem! Até que termino o fanzine e, como o sertanejo pop insiste, decido ir embora, mas faço a minha vingança. Propositadamente, deixo o “Piqui Ruído” sobre a mesa. Mudando de assunto, se Jorge Luis Borges diz que todo homem é obrigado a suportar o crescente peso de sua memória, eureca!, está aí a razão científica de como nos fragilizamos com o passar da idade. Ao carregar esse fardo da memória que não cessa de se avolumar, vamos nos curvando e reduzindo o vigor físico. Daí chegam com menos resistência os perrengues. E aparecem hipertensão, diabetes, infarto, câncer, mal de Parkinson, mal de Alzheimer, mal de dormir acordado... Pior é que não adianta querer ser um desmemoriado. As lembranças estão impregnadas. Mesmo que esqueçamos parte delas, as que marcam não nos deixam que as abandonemos. A memória é prodigiosa até em invenções. Como quando se fala com determinadas pessoas somente ao telefone e, com a constância desses contatos, pelas características da voz você passa a imaginar os traços físicos delas. As formas do corpo, o rosto, cabelo, se é alta ou baixa, a boca, as expressões faciais. Manter contato apenas com a voz de uma pessoa desconhecida pode apontar outros indícios. Pode-se imaginar que tipo de roupas ela veste. Ou se a pessoa está sendo gentil apenas pela força da necessidade e, no fundo, está segurando os nervos e gostaria mesmo é que você fizesse o que ela quer e pronto. Sem bom-dia, boa-tarde. Melhor pensar o contrário. Gentileza sempre! Só mais um verso do “Piqui Ruído”: Se alguém nos abandona, costumamos não voltar aos mesmos lugares.

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