Ressuscitando o síndico

“Tim Maia” recria 40 anos da trajetória do rei do soul brasileiro com dois atores e reconstituição de época de primeira

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Black power. Babu Santana incorpora o cantor no seu auge, quando ele injetou o poder da black music na MPB
Downtown / Divulgação
Black power. Babu Santana incorpora o cantor no seu auge, quando ele injetou o poder da black music na MPB

Quando Nelson Motta publicou a biografia “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia” em 2007, o produtor Rodrigo Teixeira (“Alemão”, “Heleno”) nem pensou em adquirir os direitos do livro porque sabia que seria uma briga ferrenha de cachorro muito grande. Amigo do autor, com quem trabalhou em um livro há mais de dez anos, ele descobriu, no entanto, que as grandes produtoras envolvidas não estavam conseguindo levar o projeto adiante. E em pouco mais de um mês, negociou os direitos com Motta e com a família do cantor, assumindo a tarefa de levar às telas a vida do ícone brasileiro do soul.

O resultado pode ser conferido a partir desta quinta nos cinemas, em “Tim Maia” (leia crítica na página 5). Seguindo a tônica de um projeto entre amigos, Teixeira convidou para a direção Mauro Lima (“Meu Nome Não É Johnny”, “Bruna Surfistinha”), que ele conhece há mais de 15 anos – e que, além de cineasta, também é músico. “Só fiz aceitar essa mistura de missão e atrevimento”, brinca Lima. Ao assumir também o roteiro do projeto, ele tomou as duas decisões mais marcantes da produção. A primeira foi escalar dois atores para viver o protagonista, na juventude e na fase adulta, além de um ator mirim para a infância. “Eu analisava o material de arquivo e concluí que o próprio Tim era três caras diferentes ao longo da vida. Pensei que um só ator não abraçaria todo esse ‘range’ de transformação”, justifica. Babu Santana, um quase veterano do cinema nacional, que começou sua carreira em “Cidade de Deus”, foi escolhido como o Tim Maia adulto. Para a juventude, Lima optou por Robson Nunes, que já havia vivido o cantor no “Por Toda a Minha Vida” da Rede Globo. “Acho que o programa foi um aperitivo, porque o livro não tinha saído ainda. E no filme, ele virou a bíblia, e eu tive bem mais tempo para me preparar”, conta Nunes, que, apesar dos 32 anos, vive um Tim pós-adolescente no filme. A segunda decisão foi transpor a narrativa em primeira pessoa do livro de Motta, que foi amigo pessoal de Tim, para o cantor Fábio (Cauã Reymond). Músico que tocou com o protagonista por muitos anos, ele acaba sintetizando vários personagens próximos ao cantor e é responsável pela narração em off que amarra os 40 anos de vida retratados no filme. “Quis puxar o ponto de vista pra uma testemunha íntima. Alguém que estivesse ‘dentro do quarto do hotel’ ou ‘naquela noite no camarim’”, explica o diretor. Completando o trio principal de personagens, Alinne Moraes também vive uma junção de duas mulheres da vida de Tim com sua Janaína: Janete, que esteve com ele até sua viagem para Londres, e Geisa, a mãe de seus dois filhos. Segundo Lima, sua maior dificuldade foi reconstruir esse enorme mosaico temporal e humano – que inclui ainda muitos personagens conhecidos do público (veja box) – em uma cidade com memória arquitetônica, iconográfica e artística tão limitadas. “Não há 20 metros de rua que estejam como era há mais de 30 anos. O Canecão não está mais lá, o Escala, o Teatro da Praia, o Solar da Fossa... Como falar de música brasileira sem essa memória? Tem que recriar, e é muito caro isso”, desabafa. E ao contrário de Tim, que não pensava em dinheiro e só queria amar, o orçamento de cerca R$ 10 milhões fez com que reconstruir todas essas épocas, com filmagens até nos EUA, fosse uma preocupação constante para o diretor. Mas a reconstituição ganha um enorme apoio do belo figurino de Reka Koves, que usa os corpos de Babu, Reymond e Moraes para marcar cada nova fase do longa. “A Reka é muito dedicada e conhece bem de figurino de época. Eu sou completamente viciado em filmar o passado. Quando nos juntamos o céu vira o limite, quase um fetiche”, confessa o diretor. Mas o verdadeiro desafio de “Tim Maia” é trazer para a tela a revolta e a agressividade que moveram a carreira do cantor. Mesmo o paulistano Robson Nunes, que teve que aprender um sotaque carioca da Tijuca, além de cantar e tocar violão profissionalmente pela primeira vez no filme, acredita que isso era o mais importante. “Essa dificuldade de provar seu talento, os obstáculos, era algo que o Babu e eu conhecíamos bem, nos identificávamos. E acho que todo artista que vir o filme vai se identificar também”, promete o ator.

Fique de olho Muitos nomes conhecidos do público fazem parte da história de Tim Maia. Erasmo e Roberto Carlos cresceram com o cantor na Tijuca e têm papéis expressivos no filme. O primeiro é vivido por Tito Naville, e o segundo por George Sauma (“Toma Lá, Dá Cá”). Já Carlos Imperial é vivido pelo comediante Luis Lobianco, do “Porta dos Fundos”. Há ainda pontas de Mallu (ex-Magalhães) como Nara Leão e Renata Guida como Rita Lee. 

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