Ora, pois

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Acontece sempre comigo, o de visitar um lugar pela primeira vez e ele fugir do estereótipo. Foi assim, em Londres, quando cheguei num dia ensolarado, em maio, quando esperava um céu nublado, cinza. Todo o contrário de Aruba, quando aterrissei debaixo de chuva e todas as reportagens que li sobre o país diziam que ali chovia pouquíssimo, tipo uma vez por ano. E foi assim em Portugal. Estava preparada para perguntar algo para um nativo e receber as respostas literais, aquelas que já viraram anedotas entre os brasileiros. – Por favor, esse bacalhau à nata vem como? – No prato, oras. Essa aconteceu com minha amiga Marcela, que estava no país na mesma época que eu, mas comigo não. E olha que perguntei muito, desde itinerário a esclarecimentos sobre pratos; de história de lugares a explicações sobre a crise econômica pela qual passa o país. E nada, nenhuma resposta que pudesse virar piada para contar para os amigos e a família. Achei ótimo, mais um mito que cai. Como caiu por terra a história de que eles, os portugueses, são sérios. No primeiro restaurante que eu e Memé, minha irmã e companheira de viagem, fomos em Lisboa, o Martinho da Arcada, ótima dica de Luciano Alkmim, o garçom nos surpreendeu pela simpatia. Nuno era o nome dele e mais parecia um carioca da gema do que o sisudo filho da terra de Camões. Começou dizendo para que nos apressássemos, senão a cozinha ia fechar. Nos sugeriu um prato que pudéssemos dividir e, quando pedi que indicasse um vinho barato, disse: “Muito bem, deixe comigo”, e virou as costas, ao que eu protestei: “Ei, você precisa me dizer qual é e quanto custa porque o que é barato pra você pode não ser pra mim”. E ele, bem-humoradíssimo, disse: “Fique tranquila, quando isso acontece nunca sugiro um vinho por mais de 200”. Ri, e ele foi embora. Em seguida, um outro garçom nos serviu um vinho delicioso. Um tempo depois, Nuno se aproximou da mesa e perguntou: “E aí gostou do vinho?”. À minha resposta afirmativa, falou: “Também, por 200”. E assim foi durante todo o almoço. Uma tarde agradabilíssima. Não só Nuno, é preciso dizer, todos os garçons que se aproximaram foram piadistas ou, no mínimo, muito gentis. Na hora da sobremesa, Nuno se superou. Descreveu cada uma delas e chegou a dizer, sobre uma específica: “Essa, não, essa não presta”. O cara era tão engraçado que não consegui pousar para a foto que minha irmã tirou de mim na mesa que era frequentada por Fernando Pessoa, ali no Martinho da Arcada. Ele ficou fazendo palhaçada e eu cai na gargalhada. Outro que ganhou nossa simpatia foi Carlos, do restaurante Jerônimos, em Belém. Como Nuno, não teve preguiça de nos sugerir vários pratos e não recomendar outros. Chegou a dizer: “Não, esse vocês não vão gostar”. Hilário, brincou quando perguntei se tal peixe tinha espinho: “Ora, pois, e você não tem ossos?”, disse, com aquele sotaque impagável. Nos encheu de mimos, como o queijo de ovelha e o bolinho de bacalhau mais delicioso que já comi na vida, que ia colocando na mesa e avisando: “Por isso, vocês não vão pagar”. Nos disse que adoraria conhecer o Brasil, mas não o Rio ou São Paulo, mas a Amazônia ou o Pantanal. “Queria me embrenhar por aquelas terras”, falou. Depois, chamou o chef da cozinha e disse que éramos amigas do Brasil, que tínhamos vindo até ali só para vê-lo. O chef duvidou, mas eu reafirmei: “Sim, é verdade. Somos amigos de infância”. Portugal foi, assim, um lugar aconchegante, em que nos sentimos acarinhadas. A não ser o incidente em que o motorista cobrou 50% a mais numa corrida de táxi, de resto, nada a reclamar dos portugueses: gentis, solícitos, simpáticos. Ah, e lindos! Nunca vi tanto homem bonito por metro quadrado! Crônica publicada originalmente em 31.10.2012. A colunista está de férias

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