Novas drogas sintéticas viram ‘onda’ em Minas

Uso está associado às regiões mais ricas: Sul e Sudeste do país, conforme especialista

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Consumo dessas substâncias é comum em raves
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Consumo dessas substâncias é comum em raves

O estudante de design gráfico Victor Hugo Santos, 20, sabia nadar, mas isso não o livrou de um afogamento. No mês passado, ele foi encontrado morto na raia olímpica da Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista, após usar uma substância alucinógena chamada Nbome, considerada razoavelmente nova no Brasil. Atualmente, essa droga sintética (feita em laboratório) e seus vários derivados – com capacidade de matar – já substituem o LSD em volume de circulação em Minas.

As duas drogas são fabricadas como selos de papel que se dissolvem na boca. Até 2012, 100% dos selos apreendidos que chegaram ao Instituto de Criminalística de Minas Gerais (ICMG) para análise eram de LSD, chamado também de “doce” em festas eletrônicas, com efeitos já conhecidos no mundo. No ano passado, esse quadro começou a mudar: em estudo feito pelo órgão, 50% das cartelas já tinham composições de Nbome e 16%, de LSD – o restante era formado por outras substâncias menos expressivas no Estado. Tendência. Hoje, o Nbome já representa 70% dos selos. “Os dados mostram que há uma mudança no padrão de consumo”, disse o chefe da Seção Técnica de Física e Química Legal do ICMG, Pablo Marinho. Por semana, uma média de três apreensões de drogas sintéticas seguem para análise no instituto. Segundo ele, cada apreensão tem, em média, de cinco a 30 selos ou de cinco a 20 comprimidos. O agravante é que o Nbome, ainda sem estudos conclusivos sobre seu poder de reação no organismo, possui uma série de novas fórmulas análogas com alto teor nocivo. Para piorar, muitos usuários podem estar consumindo o Nbome enganados, pensando que é LSD devido à configuração. “Visualmente, não dá para identificar qual a estrutura química. A pessoa compra pensando que é uma coisa, e pode ser outra”. No dia 17 de outubro, surgiu mais uma suspeita do efeito destrutivo da droga. O estudante alemão Jacob Steinmetz, 23, que fazia um intercâmbio no Brasil morreu após ingerir uma substância ainda não identificada, durante uma festa em Ilha Solteira, no interior de São Paulo. Segundo relatos de testemunhas, ele começou a passar mal e a ficar agressivo após ingerir algo que seria LSD. O contraditório é que, segundo o perito do ICMG, não há registro de overdose por LSD, diferentemente do Nbome, que também pode deixar a pessoa agressiva. “Há chance de já terem ocorrido outras mortes por uso da droga e a causa não ter sido identificada por ser uma substância nova, que ainda não está entre os métodos rotineiros de análise”, afirmou Marinho. Para a presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques, o país está saindo da onda do crack para a das drogas sintéticas. “O crack está estabilizando. Agora, estamos atravessando essa nova onda em todas as regiões do Brasil. E ela começa onde há mais dinheiro, no caso, o Sul e o Sudeste”, disse. Ela acredita que já haja alguns poucos laboratórios que sintetizam essas substâncias no Brasil, mas a maioria está na Europa.

Ecstasy também dá lugar a produtos recém-chegados Assim como LSD, o ecstasy tem dado lugar a novas substâncias. Vendido em formato de comprimido, ele predominava em 80% das unidades apreendidas até 2012, segundo o Instituto de Criminalística de Minas Gerais (ICMG). Em estudo feito no ano passado, de uma amostra de 11 comprimidos, o ecstasy aparecia em quatro – 36%. Seis (54%) tinham anfetamina, droga clássica, que também serve como estimulante, e uma (9%) continha a nova substância catinona. Com efeito semelhante ao do ecstasy, essa droga tem predominado nos comprimidos, junto com as anfetaminas, enquanto o ecstasy aparece cada vez menos.

Anvisa e polícias parceiras A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que, neste ano, fez quatro atualizações na lista da Portaria 344, de 1998, que descreve as substâncias controladas no Brasil. Foram incluídos 36 produtos na listagem. A agência informou que as polícias Federal e Civil, órgãos que realizam a repressão a drogas e identificam aquelas sintéticas, devem encaminhar pareceres técnicos ou laudos periciais para a Anvisa, informando sobre novas fórmulas.

Indústria desafia perícia O surgimento de novas drogas sintéticas tem desafiado também a polícia. Quando ocorrem apreensões de produtos não identificados, é feito um teste rápido para poder pedir a prisão em flagrante dos suspeitos – até que o Instituto de Criminalística conclua o laudo, o que demora cerca de dez dias. No entanto, como muitas substâncias são novas, a polícia ainda não tem reagentes específicos para o diagnóstico imediato.

‘Já vi muitos passarem mal’ Durante cerca de quatro anos, um analista de mercado internacional de 26 anos, que pediu anonimato, fazia uso frequente de LSD e ecstasy em festas com amigos. Ele disse que nunca teve problemas. “Faço parte de uma parcela pequena que conhece as drogas de perto sem se prejudicar. Mas é comum ver gente passando mal”, relatou o rapaz. Ele afirmou não ter mais contato com nenhuma delas desde o começo de 2013.

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