Casos simples lotam unidade

Mais da metade do atendimento em hospital infantil poderia ser feita em postos de saúde

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Efeito. Sem cobertura nos bairros, população recorre ao João Paulo II, que deveria atender casos graves
Luiza Muzzi
Efeito. Sem cobertura nos bairros, população recorre ao João Paulo II, que deveria atender casos graves

Mais da metade das crianças atendidas no Hospital Infantil João Paulo II (antigo CGP), na região hospitalar da capital, não precisaria estar lá. Ao todo, dos 29.564 atendimentos realizados entre janeiro e setembro deste ano na unidade – que é a referência no Estado em urgências pediátricas –, 55,43% foram classificados como pouco ou não urgentes e, por isso, deveriam ter sido acolhidos em centros de saúde regionais. O problema, segundo especialistas, é que o grande volume de casos pouco graves acaba sobrecarregando o hospital, onde mães e pais chegam a esperar até seis horas para que os filhos recebam atendimento.

Os dados foram levantados pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) a pedido de O TEMPO. Segundo o balanço, 55,08% dos atendimentos de urgência e internações realizados neste ano no hospital foram classificados como verde (pouco urgente) e 0,35% como azul (não urgente) no chamado protocolo de Manchester – sistema de classificação de risco por cores que ordena, pela gravidade, a prioridade dos atendimentos. Os casos mais urgentes, por sua vez, foram responsáveis por apenas 2,59% (vermelho) e 8,83% (laranja) dos atendimentos até o mês de setembro. Segundo especialistas, se outras unidades de saúde fossem bem estruturadas para absorver a grande demanda, o atendimento do Hospital João Paulo II poderia ser otimizado e direcionado para os casos realmente mais graves. “A rigor, quem é classificado como verde ou azul não requereria um atendimento de urgência e deveria ser consultado em ambulatórios de plantão. Mas isso não acontece, e esses pacientes acabam sendo responsáveis por inchar os serviços de urgência, atrapalhando até o atendimento dos laranjas e vermelhos”, afirma o médico Oswaldo Fortini, presidente da regional Minas Gerais da Associação Brasileira de Medicina de Urgência e Emergência (Abramurgem). Fortini afirma que alguns pronto-socorros da capital chegam a ter 80% de casos que não precisariam estar neles, o que prejudica o atendimento dos casos graves. “Mas também não podemos julgar essas pessoas (que lotam os hospitais com casos pouco urgentes), porque muitas vezes elas não conseguem acesso a uma consulta e acabam indo ao pronto-socorro. Lá pode demorar até mesmo 12 horas, mas pelo menos elas sabem que serão sempre atendidas”, diz. Mãe do pequeno Mikael, de 8 meses, a auxiliar de serviços gerais Gleice Kelly Souza Pereira, 21, conta que só recorreu ao Hospital Infantil João Paulo II porque não conseguiu atendimento pediátrico na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do seu bairro. Como o filho foi classificado com a cor verde, Gleice acabou esperando duas horas e meia pelo atendimento do bebê, diagnosticado com uma infecção. “É horrível, as crianças vão ficando impacientes”. Para tentar solucionar o problema, Fortini defende uma reformulação na política de saúde. “Achamos que poderiam existir, junto de cada pronto-socorro, alguns consultórios satélite que pudessem atender pacientes que não demandam emergência”. De acordo com a Academia Mineira de Pediatria, pelo menos 12 hospitais da capital fecharam seus serviços de pediatria nos últimos dez anos. 

Falta

Carência. Matéria publicada por O TEMPO no mês passado mostrou que, em um domingo, sete das oito UPAs da capital não contavam com pediatra no plantão diurno.

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