Internos contam suas histórias

Iniciativa oferece curso para 19 sentenciados de Apac e ensinará produção de vídeos, textos e fotografias

iG Minas Gerais | Aline Diniz |

Oportunidade. Internos de Apac de Itaúna conheceram detalhes de novo curso na tarde de ontem
RICARDO MALLACO / O TEMPO
Oportunidade. Internos de Apac de Itaúna conheceram detalhes de novo curso na tarde de ontem

Itaúna. Permitir que presidiários que vivem em regime fechado contem suas histórias sem a intermediação de um escritor, repórter, fotógrafo ou ilustrador é objetivo de um projeto apresentado nesta segunda para 19 internos da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Itaúna, na região Central do Estado. Batizada de A Estrela, a iniciativa de uma agência de fotografia levará aos sentenciados, por duas semanas, um curso onde eles aprenderão a produzir vídeos, textos e fotografias a partir de narrativas construídas por eles mesmos. Todo o material será transformado em uma revista e em um site multimídia.

Para o coordenador do projeto e sócio da agência Nitro, Leo Drumond, o conteúdo resultante do curso poderá ajudar a mudar a maneira como a sociedade vê o ambiente da prisão. “O preconceito tem relação com a falta de informação. A ideia é que (o material) funcione como uma ponte entre quem está lá fora e aqui dentro”, disse. Jadir Lázaro Cândido da Silva, 39, é um dos recuperandos (como os presos são chamados na Apac) e conta que se interessou pelo curso por causa da filha. “Ela tem 13 anos e adora tirar fotos e postar. Vou ensinar para ela o que aprender aqui. Contei a novidade nesta segunda, e ela já queria vir na aula”. Durante a tarde desta segunda, o grupo conversou sobre os conteúdos que serão produzidos ao longo de duas semanas. Cinco câmeras cedidas pela Nikon – parceira na iniciativa – serão distribuídas entre os internos, que serão divididos em grupos. Cada uma das turmas será responsável por contar histórias por meio de vídeo, texto e fotografia. Dentre as sugestões de temas feitas pelos participantes nesta segunda estão desigualdades na punição de pessoas de classes sociais diferentes, discriminação, influência da mídia na sentença, apresentação pessoal, motivação para entrar no crime, falhas do governo, recuperação, dia a dia, falta de oportunidades, consciência ambiental, entre outros. O diretor da Apac de Itaúna, Orlando Gonçalves de Freitas, destacou o aspecto educacional da iniciativa. “Tudo aquilo que vem reforçar a educação do sentenciado é muito válido”, disse, ressaltando que o projeto pode despertar a criatividade dos internos. “Um curso diferente vai colaborar para desenvolver o espírito criativo e favorecer a formação profissional”, completou. Já Drumond concorda que a iniciativa pode ajudar na capacitação mínima dos sentenciados. “A comunicação é cada vez mais necessária em todos os lugares, e é importante fornecer a primeira semente”, concluiu.

Produção Exemplares. A expectativa é que mil revistas sejam produzidas. Já o site do projeto deverá estar disponível em cerca de 15 dias. Tudo será apresentado aos familiares em um dia de visita.

Projeto deve ser ampliado já no próximo ano Mesmo no início, os coordenadores do projeto A Estrela já têm planos de expandir a iniciativa. “A ideia é que seja ampliado em 2015 para presídios comuns e também para egressos”, disse a jornalista Natália Martino, uma das organizadoras da iniciativa. A Apac de Itaúna foi escolhida como o local da implantação do projeto piloto porque o grupo já conhecia o ambiente. “Encontramos recuperandos poetas e escritores”, contou. O projeto é inspirado em uma publicação de 1940 chamada “A Estrela”, que era feita na Penitenciária Central do Distrito Federal, que naquela época funcionava no Rio de Janeiro. A agência também realiza uma iniciativa semelhante em festivais de fotografia. Desde 2013, seis revistas já foram produzidas pelos participantes dos eventos.

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