Morte do zagueiro Serginho, ex-São Caetano, completa 10 anos

Jogador sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a partida contra o São Paulo, no Morumbi. Uma década depois, a palavra de ordem na medicina do futebol é a prevenção

iG Minas Gerais | DIEGO COSTA |

SP - SÃO CAETANO/SÃO PAULO - ESPORTES - O zagueiro do São Caetano, Serginho, é retirado do campo pela equipe médica após sofrer parada cardiorrespiratória aos 15 minutos do segundo tempo, na partida contra o São Paulo, realizada nesta quarta-feira, no estádio do Morumbi.27/10/2004 - Foto: PAULO PINTO/AGÊNCIA ESTADO/AE
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SP - SÃO CAETANO/SÃO PAULO - ESPORTES - O zagueiro do São Caetano, Serginho, é retirado do campo pela equipe médica após sofrer parada cardiorrespiratória aos 15 minutos do segundo tempo, na partida contra o São Paulo, realizada nesta quarta-feira, no estádio do Morumbi.27/10/2004 - Foto: PAULO PINTO/AGÊNCIA ESTADO/AE

Há exatos dez anos, o futebol brasileiro sofreu uma grande mácula. No dia 27 de outubro de 2004, durante uma partida entre São Paulo e São Caetano, pelo Campeonato Brasileiro, o zagueiro Serginho teve uma parada cardiorrespiratória em pleno gramado do Morumbi. Momentos depois, já em um hospital, o então atleta de 30 anos morreu. 

A tragédia marcou o esporte brasileiro e mundial. Natural de Vitória, no Espírito Santo, Paulo Sérgio de Oliveira Silva chegou ao clube do ABC paulista no fim dos anos de 1990. Ele fez parte de um grupo marcado por grandes campanhas no Campeonato Brasileiro e Copa Libertadores. O fatídico lance ocorreu aos 14 minutos do segundo tempo. 

O ex-jogador Euller, com passagens por Atlético e América, fazia parte do elenco do Azulão e relembra a trágica noite. 

"Foi a minha maior tristeza dentro do futebol. Mais do que um colega de trabalho, o Serginho era um amigo pessoal meu e de minha esposa. Foi um desespero assistir a cena. Ainda mais que naquele ano já tivemos dois casos de jogadores (um camaronês e um húngaro) que morreram da mesma forma", disse o ex-atacante, que ressaltou os casos de Miklos Fehér, em 2004, e do Marc-Vivien Foé, em 2003, durante partida da seleção de Camarões na Copa das Confederações. 

"O São Paulo iria cobrar um escanteio, e estávamos começando a retornar para a área. Eu vi quando o Serginho caiu no campo e ali começou o desespero. Ele sentiu falta de ar, demostrava que queria pedir ar, mas não conseguia. Nisto o médico do São Caetano já entrou em campo para fazer o atendimento", disse o ex-atacante. 

"O momento mais forte foi quando liberou a gente para ir ao hospital. Saímos de campo direto para lá. Ficamos em uma sala aguardando notícias até que um médico chegou e falou que o Serginho havia morrido. Foi um momento de bastante comoção", completou Euller. 

Amigo de Serginho, o volante do América Magrão, que jogou com o zagueiro na equipe do interior paulista, também conta o que passou naquele dia.

"Estava jogando no Palmeiras, mas morava em São Caetano. Lembro que a gente estava em um hotel, eu chegue a encontrá-lo antes do jogo. A gente se abraçou, combinamos de almoçar no dia seguinte. E aconteceu a tragédia. Eu estava no shopping. Quando soube, fui correndo para o hospital", contou Magrão. 

Com passagem pelo futebol do interior mineiro, onde iniciou a carreira, ele foi sepultado em Coronel Fabriciano, no Vale do Aço. Atualmente, os pais dele vive na cidade de Serra, no Espírito 

O que mudou

Após a morte de Serginho, outros fatos semelhantes ocorreram, como o do ex-cruzeirense Diogo Mucuri. Em 2006, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória que o afastou dos gramados. Ele ainda tentou jogar como amador, mas novamente passou mal, já em 2007. Em 2013, Neto Maranhão, ex-América, morreu enquanto treinava pelo Potiguar do Mossoró, aos 27 anos. Por causa disso, a medicina do futebol passou a exigir exames cada vez mais rigorosos dos atletas. 

Voltando à noite da morte de Serginho, a reação dos atletas do São Caetano, sobretudo do lateral Anderson Lima, deixou claro que eles tinham conhecimento de um problema cardíaco do jogador, o que foi detectado em exames feitos no início da temporada. O zagueiro sofria de uma arritmia de grau leve. Segundo o médico do clube, Paulo Forte, o problema não impedia o atleta de seguir no futebol. O profissional e o presidente do clube, Nairo Ferreira, chegaram a ser acusados de homicídio doloso – quando há intenção de matar – isso porque a promotoria do Ministério Público entendia que eles sabiam do risco de falecimento do jogador. Posteriormente, a necrópsia atestou que Serginho sofria de uma cardiomiopatia hipertófrica, desenvolvida durante a temporada.

Passados dez anos, o médico do América, Doutor Cimar Eustáquio, afirma que o jogador não seria liberado para continuar a prática do esporte de alto rendimento, como é o caso do futebol, antes de o problema ser solucionado.

“De forma alguma. O que fazemos hoje, em qualquer sinal ou evidência, seja ela grave ou moderada, o atleta é afastado. A partir daí, realizamos os exames possíveis para saber se vai poder continuar a jogar ou não. Atualmente, se o atleta apresentar qualquer sintoma, estamos preparados para atendê-lo”, disse o médico.

Nos últimos dez anos, o profissional do América afirma que a prevenção passou a ser imprescindível quando o assunto é a saúde dos jogadores.

“O que observamos é a medicina preventiva. Primeiro ponto seria os exames médicos e complementares, com mais rigor que era antes. Avaliar do ponto de vista físico, psicológico. Ficou mais rigoroso. Acompanhamento durante a temporada, grupo multidisciplinar acompanhando, como fisiologistas, preparador físico, vários profissionais envolvidos. Além disso, distúrbios que afetem qualquer sistema do jogador. A partir disso, avaliar para ver qualquer situação de risco”, completou o médico do Coelho.

Euller endossa as palavras do profissional do América sobre o aumento da preocupação com a saúde dos atletas. 

"Muita coisa mudou nos últimos dez anos. A começar pelos exames, que ficaram mais rigorosos e pela obrigatoriedade de se ter um desfibrilador nos estádios . Até aquela oportunidade, não era comum fazer tantos exames de um atleta. Os jogadores tomaram consciência desta situação e estão se cuidando mais. Nos clubes, os departamento médicos estão mais atentos com a saúde dos atletas. Eles procuram se aprofundar nos assuntos referentes a condições físicas e respiratórias", explicou. 

Para o volante Magrão, o fato teve um efeito imediato, que foi no período de férias dos atletas. 

"Melhorou muito. Teve a questão das férias também. O próprio Palmeiras fez algumas represálias, conseguimos um abaixo-assinado com outros grandes clubes de São Paulo, pois não tínhamos trinta dias de férias. Em 2004, para quem estava no futebol, foi um marco para gente essa conquista. Os clubes grandes se uniram em prol disso. Foi muito pela situação dele que a gente conseguiu", ressaltou Magrão. 

O vídeo a seguir mostra a queda do jogador, bem como as frustradas tentativas de reanimá-lo ainda no gramado do Morumbi. 

 

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