Abrigo à literatura reprimida

Evento literário em Ouro Preto anuncia a criação da primeira casa de refúgio para escritores perseguidos

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Trajetória. Júlia Olivera publicou o livro de poemas “Dias Urbanos”, em 2005
Fotos: Icorn Divulgação
Trajetória. Júlia Olivera publicou o livro de poemas “Dias Urbanos”, em 2005

Como todo evento cultural que perdura durante os anos, o Fórum das Letras, que terá sua abertura oficial quarta-feira, em Ouro Preto, desdobrou-se em outras frentes que não só a literatura, foco principal da programação. No campo social, por exemplo, o evento recolhe livros que são doados para bibliotecas públicas da cidade onde é realizado.

“Acho importante que eventos sazonais contribuam com ações mais permanentes para o local, pois os realizamos com recursos públicos e devemos nos esforçar para que seus resultados deem retorno para a comunidade em forma de ações mais estruturais. Temos o dever de tentar modificar para melhor a qualidade de vida dos brasileiros”, afirma a coordenadora do Fórum das Letras, Guiomar de Grammont. Neste ano, entretanto, o Fórum das Letras promoveu uma união internacional que contribuirá não só para a vida dos brasileiros, como também para a de estrangeiros. Trata-se da parceria entre a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Internacional Cities of Refuge Network (Icorn), uma organização não-governamental responsável por abrigar, desde 2006, escritores perseguidos em seus países de origem. “O objetivo principal é defender a liberdade de expressão desses escritores. É importante dizer, no entanto, que não se trata de exilados. Eles não foram expulsos de seus países, mas sofrem por intolerância política e religiosa, muitas vezes correndo risco de morte”, esclarece o professor Carlos Magno Paiva, coordenador do departamento de relações internacionais da Ufop e responsável pelas negociações entre as entidades. Pioneirismo. A ideia é tornar a cidade de Ouro Preto a primeira da América do Sul a ter uma casa para receber esses artistas. O primeiro passo nessa direção acontecerá quarta-feira, durante a abertura oficial do evento, quando o diretor internacional do Icorn, Helge Lund, e o reitor da Ufop, Marcone Freitas, assinam uma carta de intenção para criação da casa. “Vamos disponibilizar uma vaga para escritores internacionais durante quatro meses do ano e contribuir com a alimentação”, adianta Paiva. Porém, acrescenta o professor, outros recursos são necessários para receber esses artistas. “Eles precisam de bolsas e seguro saúde, assim como apoio relativo ao transporte”, diz Paiva, ainda em busca de novos parceiros, seja de origem pública ou privada, para contribuir com essa verba. “A universidade é muito simpática à ideia, mas não somos uma cidade e precisamos de ajuda”, diz. Para conhecer de perto a experiência desses artistas, entretanto, não será preciso esperar até o ano que vem. O poeta e tradutor persa Mohsen Emadi e a poeta hondurenha Júlia Olivera participam do debate Exílio ou Silêncio já nesta quinta-feira. “Eles fazem parte dos 792 escritores perseguidos e identificados pelo Icorn em 2013. Entre eles, 72 encontravam-se em caso urgente, e conseguimos acolher 15”, conta Sylvia Debs, representante da ONG no Brasil. Em geral, os escritores, sejam poetas, jornalistas, tradutores ou romancistas, inscrevem-se no site da Icorn, que avalia os perfis e a situação atual de cada um, acionando, se necessário, organizações internacionais como a ONU. Depois da triagem, os selecionados são enviados a países que possuam uma casa. Atualmente, há 40 delas espalhadas, principalmente, por países europeus. Nas Américas, há apenas uma no México. Escolha. Apesar da origem francesa, Sylvia tem forte ligação com o Brasil por ter sido o país onde fez seu doutorado em literatura. Desde o ano passado, ela vem fomentando a criação de uma casa da Icorn por aqui. “Sempre achei que o país, por ter passado recentemente por um ditadura militar e por ter um tradição de ser hospitaleiro com estrangeiros, seria ideal”.

Se tudo der certo, Ouro Preto poderá comprovar essa hospitalidade já no ano que vem. “A expectativa é que recebamos nosso primeiro visitante em 2015”, afirma Paiva, que salienta a relevância do projeto também para a universidade. “Aqui, o escritor participará da vida acadêmica, publicando textos e ministrando workshops e palestras para alunos. Será uma troca na qual o artista perseguido e a população local poderão apreender juntos”, defende.

Uma voz lírica que resiste Tradutor de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Paulo Bomfim e Hilda Hilst para o persa, o poeta e perseguido político Mohsen Emadi vive hoje no México como beneficiado do programa da Icorn. Durante o ano de 2009, vivenciou a opressão por protestar contra a corrupção nas eleições do Irã. “Eu era um exilado dentro do meu próprio país. Hoje, a maioria dos iranianos vivem exilados de sua própria cultura em decorrência do fundamentalismo islâmico”, conta. O escritor atesta que a organização é importante não só por tê-lo ajudado a encontrar um lugar para viver, mas também por promover intercâmbio. “Desde que fui para o México, pude levar muito da cultura persa para outros locais e consegui enviar um da poesia da América Latina para lá. É como se estivesse trabalhando como embaixador cultural da poesia daqui por meio da linguagem persa”, compara. 

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