Elogio às pequenas histórias

Fernando Castets Roteirista argentino

iG Minas Gerais | daniel oliveirA |

“Os atores são muito importantes para mim porque são eles que convencem o público do que acontece com os personagens”
Mario Miranda Filho/Agência Fot
“Os atores são muito importantes para mim porque são eles que convencem o público do que acontece com os personagens”

Autor de sucessos como “O Filho da Noiva” e “Clube da Lua”, Fernando Castets veio à mostra de São Paulo ministrar uma oficina de roteiro. Tão ágil e bem-humorado quanto seus personagens, ele conversou com o Magazine sobre os tipos de histórias que gosta de escrever, as diferenças entre o cinema brasileiro e o argentino e a frustração com a participação no longa “Heleno”.

SÃO PAULO. Quando surgiu seu interesse por cinema e como foi a decisão de se tornar roteirista?

Na minha infância, as opções de diversão eram o cinema de bairro e a TV. Me lembro bem de ir ao cinema nos fins de semana. Eram programas triplos: filmes de “baixo título”, suecados e de tom erótico, e aí um longa do Louis Malle. Ou “Os Dez Mandamentos” e um filme do cantor argentino Sandro. Já escrever veio da escola primária. Sempre em datas comemorativas, nós fazíamos desenhos para celebrar. Sempre me davam regular e mandavam fazer de novo. Um dia, não sei porquê, resolvi escrever. E a professora me deu um dez. Foi quando vi que escrever poderia servir para algo que não só a escola. Aos 14 anos, comprei uma máquina de escrever. Mais tarde, como estudante de cinema, trabalhei como produtor, diretor de fotografia, mas sempre escrevi histórias e teatro. Aos poucos fiquei conhecido num circuito restrito em Buenos Aires, e o cinema veio depois. “O Filho da Noiva” foi um grande sucesso no mundo todo. Qual foi o impacto dele na sua carreira?

Às vezes me perguntam se “O Filho da Noiva” mudou a minha vida. Respondo que é a minha vida. Era o segundo filme que fazia com Juan José Campanella. O primeiro, “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva”, tinha sido bem recebido pela crítica, mas pouca gente viu. Durante as filmagens dele, começamos a pensar em um filme sobre nosso momento na vida, os 40 anos, a crise de meia-idade, meu divórcio, o Alzheimer da mãe de Juan. Não era “O Filho da Noiva”, mas os filmes viram algo que não se imagina. Foi uma repercussão enorme, um fenômeno como aconteceu agora na Argentina com “Relatos Selvagens”. Não sei se os filmes podem mudar o mundo, mas a ideia de que podem é interessante. Depois, ele ganhou o festival de Valladolid na Espanha, estreou, foi um sucesso – tanto que “O Mesmo Amor” estreou depois e fez seis vezes mais público lá do que na Argentina. O que muda em um roteiro e no seu processo criativo quando atores como Ricardo Darín e Norma Aleandro são escalados para os papéis?

Com Ricardo, o problema é que todos os filmes são com ele. E a dificuldade agora é não pensar no Darín porque já conheço seu humor, suas reações. Só que ele não quer fazer todos os personagens, não topa fazer uma mulher de 20 anos (risos). Escrevemos “O Mesmo Amor” pensando nele, e deu tão certo que, em “O Filho”, dissemos: “Vamos lhe dar mais, exigir mais”. Com o “Clube”, o mesmo. E com Norma, não sei o que dizer porque foi assustador. Nosso maior desafio no filme era não tornar o Alzheimer em uma piada, especialmente por causa da mãe de Juan. Norma foi visitá-la e absorveu tudo de uma tal forma que, quando fui ver a personagem pela primeira vez na ilha de montagem, me assustei porque achei que ele tinha colocado a mãe para trabalhar. Os atores são muito importantes para mim porque são eles que convencem o público do que acontece com os personagens. Sem eles, não acontece a tal “suspensão da descrença” do cinema. E como o projeto do “Heleno” chegou até você, e qual foi a sua contribuição ao roteiro?

O produtor Rodrigo Teixeira me procurou. E era apaixonante a vida de Heleno, esse metrossexual que as pessoas chamavam de Gilda, que era como gritar “bicha” hoje. Imaginei um encontro dele com Rita Hayworth no filme, que acabou fora. Tinha a experiência de trabalhar com o Zé Henrique, filho de Rubem Fonseca. E o Gabriel García Márquez havia escrito sobre o Heleno. Encontrei os artigos, esbarrei com ele em Cuba, lhe contei do filme e ele se recordava perfeitamente do que havia escrito. Antes de qualquer coisa, no entanto, sou um espectador qualificado e esperava mais do filme. Me pareceu frio. Queria um longa que me emocionasse, e vi só a bela plástica do Zé Henrique. É muito difícil contar o mundo do futebol no cinema. Quando repasso a história, penso nos filmes sobre futebol e não gosto de nenhum. “Heleno” não me representa tanto, não me identifico muito com o longa. E que parte do processo de escrever um roteiro é a mais difícil para você?

Escrever um roteiro é como montar um cubo mágico. Você tem personagens, conflito, diálogo, estrutura – várias faces e tem que acertar todas elas. Para mim, diálogos e humor são fáceis: encontrar a voz própria de cada um, escutar as pessoas ao meu redor. Mas a maior dificuldade é que, em um roteiro, você tem que contar o que acontece ao protagonista, mas não o que ele sente. E isso é duro. Digo que existem dois tipos de escritores: de mapa e de bússola. Os primeiros já têm tudo planejado, os últimos sabem onde é o norte e o sul e vão tateando. Um escreve o que acontece, e o outro aquilo que sente. Qual a maior diferença que você enxerga entre os roteiros brasileiros e os argentinos?

O idioma (risos). Não sei. Às vezes, tenho a impressão de que muitas histórias querem transgredir simplesmente por transgredir. Eu gosto do épico das pequenas histórias. Li um roteiro incrível sobre uma mulher que convida pessoas para um jantar em sua casa, bem no dia em que o PCC parou São Paulo com aquela rebelião no presídio. Ela sai de casa para comprar um pote de cupuaçu para o jantar, e existe uma série de obstáculos. O roteiro contava tanto a história macro quanto a pequena. Falei para o autor que ele tem que fazer esse filme. Mas eu também vejo “Tropa de Elite”, “O Som ao Redor” e os documentários de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, e me pergunto por que não fazemos algo assim. Acho que gostamos muito de nos automenosprezar. Na Argentina, achamos que somos o melhor e o pior país do mundo. E não somos nem um nem outro. Acho que algo parecido acontece aqui. Qual a sua solução para bloqueio criativo?

Escrever. O problema não é o pânico da página em branco. É o pânico de escrever algo estúpido. E tem que se superar isso. Escrever para escrever, pensando que pode mudar tudo depois. Não tenho uma pasta de textos a serem apagados, mas de textos a serem revisados. É diferente. Que roteiristas e filmes influenciam seu trabalho?

Gosto muito das comédias italianas: Ettore Scola, Mario Monicelli. Woody Allen, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Sidney Lumet também, “Rede de Intrigas”, “Um Dia de Cão”. Não encontro um filme ruim no cinema norte-americano dos anos 1970. “O Poderoso Chefão”. Gosto muito de usar esses filmes para estudar roteiro: se tivéssemos que escrever esses filmes, como faríamos, quais os objetivos emocionais... e também Hirokazu Koreeda e Takeshi Kitano. E quais os seus próximos projetos?

Fiz cinco roteiros nos últimos dois anos, o período mais produtivo da minha vida. Dois no Chile, dois no Peru, um na Argentina. Mas os filmes demoram muito a serem feitos. E estou trabalhando em um agora com Emílio Aragón, com quem fiz “Pájaros de Papel” na Espanha, e em uma peça de teatro. E tem um roteiro que eu mesmo quero dirigir, sobre um homem de 40 anos que perde o emprego e tem que ir morar com a mãe num verão infernal. As amigas que jogam baralho com a mãe começam a sumir e ela, que é fanática por séries como “CSI” e “NCIS”, começa a convencer o filho de que há um serial killer matando todas. O repórter viajou a convite da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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