A literatura como crítica da razão prática

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“Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia/ Cadáver adiado que procria?” (Fernando Pessoa)
Intervenção sobre imagens do corpo e do cérebro de James Joyce
“Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia/ Cadáver adiado que procria?” (Fernando Pessoa)

Immanuel Kant (1724-1884), com sua cabeça terrivelmente abstrata, acreditava, como todo filósofo acadêmico, que refletir é a principal função do cérebro humano. Enganou-se. A principal função do cérebro humano é sentir. Os antigos fisiologistas, com seus instrumentos arcaicos, acreditavam que o coração (ou a alma) era a sede dos sentimentos humanos. Enganaram-se. A sede dos sentimentos humanos é o cartão de crédito. Físicos, biólogos, economistas, astrônomos e matemáticos acreditam que a ciência pode fornecer a chave para os enigmas do Universo. Enganam-se. A chave para compreender os enigmas do Universo está nos pesadelos. COMPREENDER O MUNDO Duas são as teorias que colocam a loucura no centro do pensamento humanista: a História (tanto a macro quanto a micro) e a literatura de ficção (tanto a pequena quanto a grande). A História porque, estudando os movimentos e entrechoques individuais e coletivos, a vida dos grandes homens e os deslocamentos de forças e ideias, explica dialeticamente a sociedade humana, infinitamente mais complexa do que as associações de, por exemplo, formigas ou abelhas. A literatura de ficção porque, através da análise profunda dos sentimentos de personagens inventados, demonstra impiedosamente como se movem os homens dentro de si mesmos e na sociedade em que vivem. SEM FRONTEIRAS Algumas obras fundamentais destroem as fronteiras entre História e mito. No primeiro caso, temos como exemplo máximo as “Vidas Paralelas”, de Plutarco (46-120 d.C.). São 50 biografias de gregos e romanos antigos, 46 em 23 pares e quatro isoladas. Nas biografias pares, são confrontadas as vidas de um romano e de um grego ilustres, escolhidos por dados biográficos (e lendas) que os tornam próximos. Na literatura de ficção, livros como “Ulisses”, de James Joyce (1882-1941), em que tudo se passa num dia, misturam vida pessoal, política, geografia e história num relato fantástico, em múltiplas vozes. O mesmo vale para “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski, recorte alucinante da Rússia tzarista. Já em filosofia, clássicos do nível de “O Homem Revoltado”, de Albert Camus (1913-1960), transitam com desenvoltura entre política, sociedade, história e delírio, criando links iluminadores para o pensamento filosófico-político. Não é por acaso que toda a sua obra literária está ancorada na perplexidade e no absurdo. VIVER O MUNDO Desde que surgiu, na Grécia antiga, a História atravessou séculos e milênios com a mesma firmeza, mantendo-se como um dos momentos mais altos do pensamento e permitindo, ontem como hoje, compreensão profunda dos fatos.

Com a literatura foi diferente. Embora tenha nascido antes da História, na poesia épica de Homero e Hesíodo, pouco produziu até o século XIX, apesar de raros momentos luminosos como o “Satyricon”, de Petrônio (27-6 6 d.C.), e o “Decameron”, de Boccaccio (1313-1375). Até a publicação do bisavô dos romances, “Dom Quixote” (1605-1615), a ficção se alimentou de folhetins, panfletos eróticos, relatos edificantes e romances históricos e de cavalaria. Depois, e até 1800, tivemos Daniel Defoe, Voltaire, Casanova e Sade, mas não passavam de fenômenos isolados, misturando biografia, relatos de viagens, contos e novelas. UMA CENTENA DE BÍBLIAS PROFANAS Infelizmente, a produção da melhor literatura de ficção durou apenas 150 anos, que podemos situar, grosseiramente, entre 1820 e 1970. Foi uma epopeia extraordinária. A partir de proveitoso intercâmbio de ideias e técnicas narrativas criadas por franceses, ingleses e russos, explodiu o desnudamento moral e espiritual de homens e mulheres de todas as classes sociais, que espantou e revolucionou o pensamento individual e o imaginário coletivo. Infelizmente não basta entender para se tornar ético. Entre os melhores autores é mais comum a tara do que a sanidade. Suicídio, mais do que morte natural. Tendência à crueldade, acima de sentimentos caridosos. Escrever não é viver, e vice-versa. Infelizmente (pela terceira vez), dessa tremenda ebulição, similar à que produziu a vida na Terra primitiva, resultaram não mais do que cem obras inaugurais, um pouco mais, um pouco menos. DEUSES DE PÉS DE BARRO Talvez seja mais adequado, ao escrever sobre esses monstros sobre-humanos, citar conjunto de obras e não livros em especial. Pois não é possível selecionar, numa parafernália como a de Jorge Luis Borges, dois ou três relatos, ou ensaios, ou contos, ou poemas, pois tudo remete a tudo e volta à origem, naquele que é um dos quatro ou cinco expoentes do século XX. É possível garimpar, nas riquíssimas jazidas desse século privilegiado (e não só em literatura, mas também em tecnologia e atrocidade), talvez cinco autores capazes de representar, sozinhos, toda a literatura que já existiu. Digamos: Kafka, Joyce, Faulkner, Borges e Camus. Curiosamente, representam cinco nacionalidades diferentes, embora dois tenham escrito em inglês e nós, latino-americanos, tenhamos o privilégio de contar com um deles. O diabo é que, numa síntese tão simplória, vejo a me espreitar com o rabo do olho, um pouco atrás no tempo, Dostoievski, a quem tanto Faulkner quanto Camus prestaram comovida homenagem em traduções, paráfrases e citações. Sim, o velho Dostô, talvez o maior de todos os ficcionistas, mortos ou vivos.

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