LGBTs para menores

Os percalços e sucessos da literatura para crianças e jovens no Brasil com a temática gay; Georgina ressalta o importante papel de obras desse nicho

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Obra. Imagem do livro de Márcia Leite, “Olívia Tem Dois Pais”, publicado pelo selo Seguinte
TALINE SCHUBACH / REPRODUÇÃO
Obra. Imagem do livro de Márcia Leite, “Olívia Tem Dois Pais”, publicado pelo selo Seguinte

Não é recente a presença de livros infantojuvenis de temática LGBT no mercado editorial brasileiro. Nos idos dos anos 2000, a escritora carioca Georgina Martins publicou o livro “O Menino que Brincava de Ser”. Nos anos seguintes outros começaram a integrar, mesmo que timidamente, as prateleiras das livrarias.

Mas foi com o lançamento de “Will e Will”, em 2013, dos escritores David Levithan e John Green (este internacionalmente conhecido pelo hit “A Culpa É das Estrelas”) que o segmento ganhou maior repercussão. Porém, mesmo que mais títulos da área venham sendo lançados, o conteúdo das obras e as particularidades do público alvo tornam o mercado desse nicho ainda instável. Para a publisher responsável pelo setor infantojuvenil da editora Companhia das Letras, Julia Moritz Schwarcz, as apostas acontecem, mas o retorno ainda é pequeno. “Os livros ainda vendem muito pouco”, diz. Ela lembra que uma das primeiras apostas que fez foi o livro infantil “Olívia Tem Dois Papais”, de Márcia Leite, em 2010. “Era uma proposta de um lindo livro e muito bem escrito”, lembra. Seguindo os padrões da empresa, foram publicados 3.000 exemplares e, depois de quatro anos, apenas 1.400 foram vendidos. O insucesso, para Julia, tem como principal causa a resistência de professores que não adotam tais obras temendo represálias por parte de pais ou da própria escola. A percepção é fruto dos contatos que o departamento da editora dedicado ao relacionamento com educadores faz diariamente com esses profissionais. “Há muitas famílias conservadoras ou religiosas no Brasil que não levam isso bem”, afirma. E ela tem razão. Na ocasião em que o “Menino que Brincava de Ser”, de Georgina Martins, foi lançado, a escritora participou de um programa de TV, e o resultado não foi positivo. “O programa foi muito contrário ao livro, e isso gerou uma confusão no colégio que o havia adotado, pois uma mãe procurou a direção das escola e declarou que o pastor de sua Igreja não aprovava a leitura daquele livro pelo filho”, contou. A situação melhora um pouco quando, segundo Júlia, o livros têm os adolescentes e jovens como público. “Aristóteles e Dante Descobrem o Segredo do Universo”, do norte-americano Benjamin Alire Sáenz, publicado pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras, foi lançado em abril já alcançou a marca de 1.400 exemplares vendidos. “Esses livros não têm que passar pela escola ou pelos pais para chegar nas mãos dos leitores e abordam temas que fazem parte da vida deles, por isso a venda é maior”, explica Júlia. Outro lado. A editora executiva da Galera, selo jovem da Editora Record, Ana Lima, avalia esse mercado com mais otimismo. “Se considerarmos que os três livros que temos em catálogo abordando diretamente essa temática – “Will & Will”, “Todo Dia” e “Garoto Encontra Garoto” – venderam mais de 130 mil exemplares, acho que podemos dizer que a resposta do mercado tem sido ótima”, afirma. Ana explica que as histórias LBGTs têm chamado atenção por se aproximarem do dia a dia dos jovens. “Tramas que trazem apenas histórias de relacionamentos heterossexuais já não retratam a realidade deles”, diz. É esse aspecto que chama a atenção de Robson Gabriel, 21, que leu seu primeiro livro de temática LGBT, “Micah”, de Joyee Flynn, aos 17 anos. O prazer não só de ler como falar sobre livros deu origem ao blog Perdido em Palavras. Foi lá que ele publicou recentemente uma resenha sobre “Aristóteles e Dante...”. “Foi, com toda a certeza desse mundão, o livro que mais me impactou e me fez refletir sobre o que eu fiz da vida até o presente momento”, escreveu. Em sua visão, os livros contribuem para que o preconceito diminua, e o número de leitores aumentaria ainda mais se parte não fosse preciso temer retaliações. “Recebo muitos comentários de jovens que temem a reação dos pais e da sociedade em geral”, diz. Apesar de as vendas ainda não serem completamente satisfatórias e de algumas engrenagens sociais atuarem como barreira para a leitura dos livros, os entrevistados para esta matéria concordam que a inserção e permanência de tais obras no mercado reflete, de alguma forma, certo amadurecimento da sociedade brasileira. Ou seja, vivemos numa sociedade dividida, mas que, em geral, absorve bem livros de temática LGBT. Georgina ainda ressalta o importante papel desempenhado por obras desse nicho. “Acredito que a literatura infantojuvenil com temática LGBT cumpre, além da função educacional, um papel social crucial na luta contra o preconceito, pois é na adolescência e na juventude que estamos mais predispostos a conhecer ideias novas, sejam elas quais forem. Vemos outros ângulos que nos fazem solidarizar com o outro”, opina a escritora.

Em Minas Gerais O Grupo Autêntica, uma das editoras mais atuantes do mercado mineiro, possui no catálogo de seu selo Gutenberg, dois títulos sobre o assunto. “Minha Metade Silenciosa”, de Andrew Smith, é aquele com maior carga emocional, pois trata da história de um jovem de 17 anos chamado Bosten, que vive o dilema da descoberta da sua sexualidade em meio ao um lar de pais violentos e abusivos. “É um livro que em geral vende bem em todos os Estados”, afirmou a editora do selo, Alessandra Gelman Ruiz. Já o livro “Fazendo Meu Filme 4”, da escritora e também colunista deste MAGAZINE, Paula Pimenta, tangencia o assunto ao inserir o personagem Alejandro, um gay assumido e muito bem resolvido que se torna amigo da protagonista Fani, quando ela se muda para Los Angeles. “Nossa aposta é no público juvenil, pois acredito que ele aceita melhor o tema, compreende que essa questão faz parte de nossa sociedade. Afinal, o que acontece no mundo acaba se refletindo na literatura”, conclui Alessandra.

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