Assim na terra como no céu

Autores e elenco falam da presença de espíritos, doutrinas e do apelo sobrenatural nas telenovelas

iG Minas Gerais | geraldo bessa |

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O lado sensível e, por vezes, sombrio de histórias sobrenaturais mexe com o público. Por isso, convive muito bem com o tom mais realista das novelas. Com resultados oscilantes, produções baseadas em tramas de vida após a morte, espíritos obsessores, anjos caídos, sensitivos, paranormais e outros arquétipos dessa temática sempre voltam à tona na programação. Desde a pioneira “O Terceiro Pecado”, de Ivani Ribeiro, que o público convive com esse tipo de aposta, que também tem entre seus representantes novelistas clássicos como os falecidos Dias Gomes e Janete Clair e nomes mais novos como Elizabeth Jhin e Walcyr Carrasco. O tema volta ao ar no próximo dia 3 de novembro com “Alto Astral”, assinada por Daniel Ortiz, em seu primeiro trabalho como autor titular. “Quero mostrar uma visão moderna do sobrenatural, de tons leves e como apoio a uma história romântica bem tradicional. Gosto desse filão da teledramaturgia, mas acho que essa novela se diferencia pela ausência de doutrina. Não vamos defender dogmas”, analisa.

Centrada na história de amor entre Caíque e Laura, de Sérgio Guizé e Nathalia Dill, os bastidores de “Alto Astral”, por si só, já estão carregados de um ar sobrenatural. A ideia da novela é de Andréa Maltarolli, autora que morreu em 2009. Pouco tempo antes de falecer, ela tinha apresentado a sinopse para o departamento artístico da Globo. E, ao lado de Silvio de Abreu, escreveu os seis primeiros capítulos da produção. “A morte dela foi um golpe. Eu sempre quis levar essa novela ao ar. Adoro a base feita pela Andréa e seria um desperdício deixar esse texto guardado. Demorei a compreender por qual caminho seguir com a história”, conta Silvio, que atua como supervisor da trama.

Foi Silvio de Abreu, inclusive, que supervisionou Elizabeth Jhin em seu primeiro trabalho como titular na Globo, a mística “Eterna Magia”, de 2008. Herdeira direta da pegada de Ivani Ribeiro, a autora desenvolve sua carreira como novelista tendo o espiritismo como tema base. Após chamar a atenção com o sucesso de “Escrito nas Estrelas”, de 2009, ela volta ao ar no segundo semestre de 2015 com “Encontro Marcado”, onde, novamente, irá entrelaçar histórias de vida após a morte. “É um tema fascinante e que dá ao novelista muitas possibilidades e caminhos. A resposta é sempre muito calorosa, pois é um tema que conforta e causa curiosidade no público”, analisa Jhin.

A boa receptividade do assunto tem na trama de “A Viagem”, de Ivani Ribeiro, seu melhor exemplo. Exibida originalmente pela extinta Tupi, em 1975, o texto ganhou um remake em 1994. Estrelada por Christiane Torloni, a segunda versão bateu os 52 pontos de audiência no horário das sete e já foi reprisada quatro vezes. Atualmente, é a maior audiência do canal pago Viva. “Eu entendo o interesse do público por novelas espiritualizadas. Elas fazem um contraponto entre os dramas da vida e a esperança de um recomeço. ‘A Viagem’ fez e faz sucesso até com quem não acredita em nada. Acho que a força da história conta muito para isso”, filosofa Torloni.

Autores mais ligados a tramas naturalistas também defendem flertes com histórias sobrenaturais. Manoel Carlos, por exemplo, concentrou boa parte de “Páginas da Vida”, de 2006, na fantasminha Nanda, interpretada por Fernanda Vasconcellos. Mais recentemente, foi Marina Ruy Barbosa que serviu de fantasma para “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco. A história sobrenatural nem estava nos planos do autor, mas a recusa da atriz em cortar os cabelos para viver uma doente de câncer terminal fez com que o autor incluísse o viés sobrenatural na produção. “Foi a solução que idealizei para dar continuidade. Autor de novela precisa ter jogo de cintura para lidar com esses imprevistos”, analisa Carrasco.

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