Dias de fúria em um “Pulp Fiction” argentino

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Produzido por Pedro Almodóvar, “Relatos Selvagens” concorreu à Palma de Ouro
WARNER BROS./DIVULGAÇÃO
Produzido por Pedro Almodóvar, “Relatos Selvagens” concorreu à Palma de Ouro

Um dos melhores memes já criados na internet é a imagem de Julie Andrews de braços abertos no pôster de “A Noviça Rebelde”, com “Foda-se essa merda toda” escrito logo abaixo. Ele é perfeito porque, quando seu chefe arruína seu dia, alguém quase te mata no trânsito, ou é grosseiro sem nenhum motivo (ou seja, quase sempre), você pode chegar em casa, postar a imagem no seu Facebook, ninguém é pessoalmente ofendido, e Andrews descarrega sua raiva por você.

“Relatos Selvagens” é o retrato de um universo onde esse meme não existe. Ou melhor ainda: onde as pessoas resolveram colocar em prática seu maravilhoso conselho. O longa argentino, que estreia na cidade após concorrer à Palma de Ouro em Cannes e ser escolhido para concorrer a uma vaga (quase garantida) no Oscar de filme estrangeiro em 2015, é uma compilação de seis histórias de vingança que misturam “Pulp Fiction” com Ian McEwan e o lado mais sórdido do ser humano – resultando numa das produções mais divertidas do ano.

O mais tarantinesco (e o melhor) dos seis traz Leonardo Sbaraglia como Diego, um motorista arrogante em um carro importado, que insulta um pobre coitado em um calhambeque após ter dificuldade para ultrapassá-lo. Quilômetros depois, porém, o pneu do carro de Diego fura, e quando o outro motorista o alcança – bem, digamos que ele não gostou do que ouviu.

Previsível

Antes, porém, o longa abre com Darío Grandinetti liderando um grupo de pessoas que descobre que não estão no mesmo voo por acaso. E segue com Rita Cortese como uma cozinheira que ajuda sua garçonete a se vingar de um mafioso do passado, no mais bobo e previsível dos seis contos. No episódio “classe média sofre versão UFC”, Ricardo Darín vive Simon, um engenheiro multado por estacionar em um local proibido não sinalizado. No único dos seis que não envolve vingança em si, Oscar Martínez é Mauricio, um pai tentando livrar da prisão o filho que atropelou uma grávida embriagado.

E fechando com chave de ouro e sangue, está o maravilhoso casamento de Romina (Erica Rivas), que descobre durante a festa que o noivo Ariel (Diego Gentile) a traiu e precisa de poucos minutos para se transformar numa “Garota Exemplar”.

É importante ressaltar que o longa não trata de justiça, mas sim de vingança – quente, sacana e irracional. Lembra quando Saramago disse que “dentro de nós, existe uma coisa que não tem nome. Essa coisa é o que nós somos”? “Relatos Selvagens” é sobre essa coisa. Mesmo o personagem de Darín, que é o mais injustiçado dos seis, é simplesmente alguém que não tem limites para provar que está certo. Ninguém aqui presta, e isso que é legal.

 

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave