A atual eleição presidencial à luz da história antipovo do país

iG Minas Gerais |

DUKE
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Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira – na tensão entre as elites e o povo. Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa formação social desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de ser movidos: a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos; o predomínio da monocultura; a produção voltada para o mercado externo; e o regime de trabalho escravo. A independência de Portugal não alterou nenhum desses pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente propunham a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura; da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno; do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre. Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas, e foram combatidos a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e, sobretudo, nas relações de trabalho. Basta rememorar algumas dessas revoltas: a Balaiada, no Maranhão; a Cabanagem, na Amazônia; a Praieira, em Pernambuco; e a Farroupilha, no Sul. A Revolução de 1930, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente, deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno; do modelo agrário exportador para o de substituição de importações; do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas-São Paulo para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno; do voto censitário para o voto universal (menos para os analfabetos); das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial, com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária. Getúlio Vargas implantou uma política corporativista de apaziguamento entre as classes e de cooperação entre capital e trabalho, entre operários e capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais. Nesta campanha eleitoral, certos meios criaram o lema “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT para instaurar a “ditadura” do mercado financeiro. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão? A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes, como o Prouni e as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão; a reforma agrária; a demarcação e homologação em área contínua da terra ianomâmi contra meia dúzia de arrozeiros, assim como todos os programas sociais. Os que sobem o tom, dizendo que tudo no país está errado, em que pesem a melhoria do salário mínimo, a criação de milhões de empregos, a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres, a criação do Mais Médicos etc., posicionam-se contra as políticas que visam assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios e, sobretudo, colocar um pouco de freio (insuficiente, a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do mercado. São essas as razões do meu voto para outro projeto de país que atende as demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso que votei em Dilma Rousseff no primeiro turno e o farei no segundo, respeitando outras escolhas.

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